Disputas e tolerância

Th.16 Conselho do Buddha a seus discípulos sobre como reagir a críticas e acusações

Esta passagem aconselha que se tenha calma avaliação em relação a qualquer crítica ou elogio dirigidos ao Buddha, ao Dhamma ou à Sangha (comunidade buddhista).

“Monges, se outros falarem com desprezo sobre mim, o Dhamma, ou a Sangha, vocês não devem levar a mal, ou se tornarem infelizes, ou se sentirem com a mente deprimida. Se vocês, em seguida, se sentirem irritados e descontentes, poderá ser um perigo para vocês mesmos. Se outros falam com desprezo sobre mim, o Dhamma ou a Sangha, e vocês, em seguida, se sentirem com raiva e descontentes, vocês serão capazes de saber se o que os outros têm falado foi bem falado ou mal falado?” “Isso não seria assim, senhor”. “Mas quando outros falam com desprezo sobre mim, ou o Dhamma, ou a Sangha, vocês devem desvendar o que está contrário aos fatos e contrário à verdade, salientando que ‘isto não está de acordo com verdade, não é assim, esta (falha) não é encontrada em nós’”.

“Monges, se outros falarem em me louvor, em louvor do Dhamma, em louvor da Sangha, então vocês não devem se sentir muito contentes, felizes, ou com a mente exultante… Isso seria prejudicial a vocês mesmos. Quando outros falam em meu louvor, ou do Dhamma, ou do Sangha, vocês devem reconhecer o que é factual como factual, dizendo: ‘Isto está de acordo com a verdade, é assim, esta (qualidade) é encontrada em nós’”.

Brahma-jāla Sutta: Dīgha-nikāya I.2–3, trad. P.D.P.

 

Th. 17 A origem causal das disputas

Nesta passagem, o Buddha diz que ele disputa com ninguém (cf. *M.19), e as disputas surgem devido a conceitos fixos que nascem da maneira como alguém processa e elabora mentalmente aquilo que percebe.

O sākya Daṇḍapāṇi … aproximou-se de onde o Bem-Aventurado estava sentado, trocaram cumprimentos amistosos, e ficaram de lado apoiados sobre um cajado. Ele disse então: “Qual a teoria que o renunciante sustenta e qual ele expande?”

“A teoria que eu sustento é tal que no caso de um brāhmaṇa (como eu mesmo) [183] vivendo sem ser aprisionado por desejos sensoriais, livre da perplexidade, com as preocupações eliminadas, com o desejo sedento por vários tipos de existência abandonado, e para quem as concepções [184] não jazem latentes, permanece sem disputar com ninguém neste mundo formado de deidades, māras, brahmās, renunciantes, brāhmaṇa, divindades e humanos. Irmão, eu sustento tal teoria, e por isso eu a propago”.

Quando isto foi dito, o sākya Daṇḍapāṇi balançou sua cabeça, colocou a língua para fora e, mostrando três bifurcações (semelhantes a vincos) em sua testa, saiu apoiado no seu cajado. …

… [Mais tarde, o Buddha reportou essa conversa para alguns dos seus monges.] Então, um determinado monge disse para o Bem-Aventurado: “Sustentando qual teoria o Bem-Aventurado permanece sem disputar com ninguém neste mundo que consiste de deidades, māras, brahmās … e como, senhor, essas concepções não permanecem latentes no Bem-Aventurado que vive sem ser aprisionado por desejos sensoriais…?”

O Bem-Aventurado disse: “Monge, quando em qualquer medida avaliações em termos de obsessão conceitual [185] inundam uma pessoa, se (para ela) não há nada nisso em que se deleitar, nada para dar boas-vindas, nada para separar, então isso por si mesmo é o fim das tendências latentes para o apego, aversão, crenças dogmáticas, dúvida, presunção, do apego aos modos de ser, ignorância, o fim da tendência latente de pegar bastões e armas, de brigas, disputas, acusações, calúnias e mentiras. Aqui, todos esses estados danosos e prejudiciais cessam sem deixar rastros”.

O Bem-Aventurado disse isso, e se levantando de seu assento entrou no monastério. Logo após o Bem-Aventurado ter ido ao monastério, isso ocorreu aos monges: “O Bem-Aventurado explicou o ensinamento resumidamente para nós e saiu sem explicar o significado detalhadamente … O Venerável Mahā-kaccāna é capaz de nos explicar em detalhes”. Então, os monges se aproximaram do Venerável Mahā-kaccāna e lhe pediram: “Venerável Mahā-kaccāna, por favor, explique isso”.

O Venerável Mahā-kaccāna explicou a seguir: “Amigos, por causa dos olhos e das formas visíveis, consciência visual surge. O encontro dos três é o contato (sensorial). Por causa do contato, a sensação surge. O que é sentido é conceitualizado, e o que é conceitualizado se pensa a respeito. Considerando o que foi pensado, alguém se engaja na proliferação obsessiva dos pensamentos. Por causa disso, a avaliação em termos da obsessão conceitual inunda uma pessoa com relação a formas passadas, futuras e presentes que são discerníveis pelo sentido visual. [O mesmo, então, se repete com relação à interação que se dá entre as outras faculdades sensoriais e seus estímulos correspondentes; isso inclui a mente e os objetos mentais]”.

Madhupiṇḍika Sutta: Majjhima-nikāya I.108–112, trad. P.D.P.

 

Th.18 Como surgem as brigas

Esta passagem enfatiza como o apego às posses leva a brigas.

Agora, neste caso, Ānanda, o desejo sedento depende da sensação; a busca depende do desejo sedento; o ganho depende da busca; decidir (o que fazer com o que foi adquirido) depende do ganho; desejo e apego dependem de decidir; apego excessivo depende do desejo e do apego; ganância depende do excessivo apego; avareza depende da ganância; protecionismo depende da avareza; e por causa do protecionismo vários fenômenos ruins e prejudiciais passam a existir, como o acesso de porretes e de armas afiadas, lutas, brigas, disputas, acusações, calúnias e mentiras.

Mahā-nidana Sutta: Dīgha-Nikāya II.59, trad. P.D.P.

 

Th.19 O apego dogmático a opiniões como uma fonte de disputas

Os seguintes versos vêm de quatro discursos de uma seção do Sutta-nipāta chamada Aṭṭhaka-vagga. Esta seção é de um dos primeiros textos buddhistas, como mostrado pela sua citação em vários outros textos antigos. Ele particularmente enfatiza o não-apego a ideias e opiniões.

Alguns falam com uma mente má, enquanto outros falam motivados pela verdade. Um sábio não entra em uma disputa que surgiu. Portanto, em nenhum lugar tem ele uma obstrução.

Como alguém poderia ir além de uma perspectiva dogmática [186] própria que ele tenha celebrado com desejo e preferência? Ele falaria de acordo com o seu entendimento.

Para quem quer que tenha pontos de vista dogmáticos estimados, mas impuros, alcançados pela especulação e construídos da mesma maneira, tudo o que ele vê como vantajoso para si mesmo, apegando-se a ele, há (para ele) uma calma dependente do que é instável.

Para alguém purificado, nenhum ponto de vista com base na especulação pode ser encontrado no que diz respeito às diferentes formas de existência. Tendo abandonado tanto a hipocrisia como o orgulho, pelo que ele seria levado (para o ciclo de renascimento)? Pois, desapegado é ele.

Aquele que está apegado entra em disputas sobre teorias. Por que e por conta do que alguém iria afirmar (uma teoria) quando se está desapegado? Ele não tem nada a que se segurar ou a abandonar. Aqui mesmo ele purificou todos os pontos de vista dogmáticos.

Eles dizem: “Só isso é puro, não há pureza em outras doutrinas”. Falando sobre a excelência de tudo o que eles estão apegados, eles estão separadamente estabelecidos em verdades individuais [187].

Tendo entrado na multidão desejando uma disputa, eles chamam um ao outro de tolo. Eles se empenham em tagarelice contenciosa agarrando-se a opiniões diversas, desejando aplausos, autodenominando-se de pessoas habilidosas.

Aqueles que se imaginam como sendo iguais, superiores ou inferiores, por causa disso vêm disputar. Para aqueles que não se movem por esses três modos, (o pensamento) “eu sou igual ou superior”, não ocorre.

O que o brāmaṇa diria que é a verdade? Ou com base em quê valor disputaria ele dizendo: “Isto é falso”? Aqueles para quem não há (o senso de) ser igual ou desigual, baseado em quê disputariam?

Para aquele que é desapegado de percepções (fixas) não há amarras. Para aquele que está livre por meio do insight não há ilusões. Quem quer que se agarre a percepções fixas ou a pontos de vista dogmáticos, esses vagueiam no mundo em busca de disputas.

Apegados a suas próprias visões, os habilidosos (especialistas) vêm disputar e afirmam diversas teorias. “Aquele que sabe consequentemente entende a doutrina, e aqueles que insultam isto são imperfeitos” (dizem eles).

Desta maneira também eles querelam e debatem, e dizem que a outra pessoa é um tolo sem habilidades. Qual dentre elas é a verdadeira teoria? Todos eles falam como pessoas habilidosas.

If one who is not agreeing with another person’s doctrine becomes a fool, a beast, and one of inferior wisdom, then really all are fools and of much inferior wisdom. For, all of them cling to dogmatic views.

Se alguém que não está concordando com a doutrina da outra pessoa se torna um tolo, uma besta e uma pessoa de sabedoria inferior, então todos, na verdade, são tolos e de uma sabedoria muito inferior. Porque todos eles agarram-se a visões dogmáticas.

Se, em virtude de sua própria perspectiva alguns se tornam puros, ou de purificado insight, hábeis e conhecedores, então a nenhum deles falta sabedoria. Pois eles também são possuidores de perspectivas conclusivamente apreendidas.

Ainda assim, eu não digo que o que os tolos declaram separadamente entre eles é a realidade. Cada um deles faz, da sua própria perspectiva dogmática, verdade. É por isso que eles consideram um outro como tolo.

O que alguns dizem é verdadeiro ou real, o que outros dizem é inferior e falso. Dessa maneira também eles brigam e disputam. Portanto, renunciantes não declaram uma verdade uniforme.

Existe uma verdade, e não há uma segunda em relação à qual (uma verdade) as pessoas que a entendem não entram em disputa. Renunciantes, por sua vez, estimam diversas verdades. É por isso que eles não declaram uma verdade uniforme [188].

Porque, na verdade, os que afirmam ser hábeis, aqueles que propõem teorias, falam de diversas verdades? É realmente o caso que existam muitas e diversas verdades? Ou é o caso que eles estejam apenas seguindo o curso de sua lógica raciocinada?

Certamente não há muitas e diversas verdades eternas no mundo à parte de interpretações perceptivas [189]. Eles se engajam em raciocínio especulativo em relação a perspectivas dogmáticas e declaram de dois ensinamentos: “verdadeiro” e “falso”.

Duṭṭhaṭṭhaka, Pasūra, Māgandhiya e Cūḷa-viyūha Suttas: Sutta-nipāta 780–787, 824–825, 842–847, 878–886, trad. P.D.P.

 

Th.20 A parábola dos cegos e do elefante, e as “questões indeterminadas”

Esta passagem introduz um conjunto de dez pontos de vista sobre o que é conhecido como os (avyākata) problemas indeterminados ou não declarados (veja *Th.10 e a seção de introdução antes desta). Isso aconteceu porque o Buddha as deixou de lado sem respondê-las, já que responder era irrelevante para alcançar a libertação em relação ao sofrimento e levava a brigas sem sentido. Aqueles que detêm esses pontos de vista são retratados como tendo se fixado em apenas uma faceta limitada da realidade, que eles percebiam apenas parcialmente e, então, o excesso de generalização a partir desta. Em outra passagem (Majjhima Nikāya I.428- 431), onde um monge diz que vai deixar de ser monge, a menos que o Buddha dê respostas sobre as dez questões não declaradas, diz o Buddha que nunca havia prometido dar respostas a essas perguntas, e comparou o monge a alguém atingido por uma flecha envenenada que recusa tratamento médico até que ele saiba tudo sobre quem atirou nele e sobre a composição da flecha.

“Senhor, aqui em Sāvatthī vivem muitos renunciantes, brāhmaṇas e ascetas andarilhos que têm outros ensinamentos, e que guardam vários pontos de vista, tendo várias preferências, tendo vários gostos, e que dependem de várias formas de apego dogmático. Os pontos de vista desses renunciantes e brāhmaṇas incluem:

O mundo é eterno: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo não é eterno: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo é finito: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

O mundo é infinito: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

O princípio vital é o mesmo que o corpo mortal: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

O princípio vital é diferente do corpo mortal: só isso só é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata [190] existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata não existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata tanto existe como não existe: só isso é verdade e tudo o mais é falso.

Após a morte, o Tathāgata nem é, nem não é: somente isso é verdade e todo o restante é falso.

Eles vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas disputando e discutindo dizendo: ‘A realidade é desta forma e não daquela; a realidade não é desta forma, mas daquela’.”

“Monges, os ascetas andarilhos que buscam outros ensinamentos são cegos e carecem de visão. Não sabem o que é benéfico e o que não é benéfico. Não sabem o que é realidade e o que não é realidade. Sem saber o que é realidade e não realidade, vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas … No passado, monges, existiu um certo rei em Sāvatthī. Então, esse rei chamou uma determinada pessoa e disse: ‘Amigo, venha aqui. Reúna todas as pessoas em Sāvatthī que são cegos de nascimento em um lugar’. A pessoa respondeu ao rei: ‘Está certo, Senhor’ e, reunindo todos aqueles que nasceram cegos em Sāvatthī, foi ao rei e disse a ele: ‘Senhor, reuni todos os que nasceram cegos em Sāvatthī’.

‘Então, amigo, leve um elefante à presença dessas pessoas que nasceram cegas’. O homem respondeu: ‘Está bem, Senhor’, e apresentou o elefante às pessoas cegas de nascimento. Dizendo: ‘O elefante é assim’, ele apresentou a cabeça do elefante para algumas … a orelha para outras … a presa para algumas … o tronco para outras … o corpo para algumas … o pé para outras … a coxa para algumas … a cauda para outras e o final da cauda para outras …

Ele foi até o rei e disse: ‘Senhor, o elefante foi observado por essas pessoas cegas de nascimento. Agora é a vez do rei’.

Monges, então, esse rei foi até as pessoas cegas de nascimento e perguntou: ‘Vocês, cegos de nascimento, observaram um elefante?’ ‘Sim, Senhor, observamos um elefante’. ‘Se é assim, vocês, pessoas cegas de nascimento, digam como é um elefante’.

Aquelas … que tinham sentido a cabeça do elefante disseram: ‘O elefante é como um pote’. Aquelas … que tinham sentido a orelha do elefante disseram: ‘O elefante é como uma cesta de joeirar’. Aquelas … que tinham sentido a presa do elefante disseram: ‘O elefante é como uma relha do arado’. Aquelas … que tinham sentido o corpo do elefante disseram: ‘O elefante é como um armazém’. Aquelas … que tinham sentido a perna do elefante disseram: ‘O elefante é como um pilar’. Aquelas … que tinham sentido a coxa disseram: ‘O elefante é como um almofariz’. Aquelas … que tinham sentido a cauda do elefante disseram: ‘O elefante é como um pilão’. Aquelas … que tinham sentido o final da cauda disseram: ‘O elefante é como uma vassoura’”. Elas, dizendo que o elefante é como isto e não como aquilo … lutaram entre si com os punhos. O rei se divertiu com isso.

Do mesmo modo, monges, os ascetas andarilhos que procuram outros ensinamentos são cegos e carecem de visão … Eles vivem se rasgando entre si com palavras cortantes como adagas disputando e discutindo … .”

Paṭhama-nānātitthiya Sutta: Udāna 67–69, trad. P.D.P.

 

Notas:

[183] No sentido de uma pessoa espiritualmente perfeita e não no sentido tradicional de um membro de uma classe social hereditária.

[184] Saññā: rótulos ou interpretações perceptivas.

[185] “Avaliação em termos de obsessão conceitual”, é utilizado como tradução de papañca-saññā-saṅkhā. Papañca é um termo que tem grande importância psicológica no buddhismo, significando a proliferação do pensamento, uma elaboração transbordante que aflige uma pessoa quando esta fica presa em uma teia de emoções e pensamento conceitual baseados na percepção dos sentidos e em sentimentos que surgem em decorrência disso.

[186] O termo pāli diṭṭhi aqui é traduzido como “perspectiva dogmática”. O Buddha usou esse termo para se referir a todas as opiniões especulativas conhecidas durante seu tempo. Elas são apresentadas como um total de  62 (ou melhor 62 fundamentos para uma menor amplitude de pontos de vista) no Brahmajāla Sutta do Dīgha Nikāya, onde é feita uma tentativa para enumerar exaustivamente os dogmas apresentados por aqueles que especularam sobre a origem da existência e o destino final dos seres.

[187] Opiniões subjetivas que as pessoas geralmente tendem a aceitar como verdade objetiva.

[188] Deve ser mencionado aqui que a afirmação do Buddha de que só há uma verdade (ou realidade: sacca) e não uma outra, não pretende afirmar uma verdade absoluta, mas mostra que a realização da paz do nirvāna, a qual, do ponto de vista do Buddha, é uma realidade que pode ser vista, coloca um fim em todas as formas de disputa.

[189] A origem sensorial de muitas construções da “verdade” é mencionada aqui, fazendo notar que além de saññā não podem existir várias e diversas verdades. Saññā representa a interpretação subjetiva do que é dado pelas faculdades dos sentidos; a verdadeira compreensão requer que ela seja perspicazmente guiada pela sabedoria.

[190] O termo Tathāgata significa, literalmente, Assim-ido ou Assim-vindo. Aqui significa aquele que alcançou o objetivo último da vida religiosa, aquele que alcançou a verdade última – aquele que alcançou e ensina, daí o “assim”: a verdadeira realidade. Frequentemente, é usado especificamente para designar o Buddha.

Atitude para com outras tradições espirituais

Th.15 O Dhamma não é para converter os outros, mas para ajudá-los a serem pessoas melhores

Nesta passagem, o Buddha fala a um asceta errante que não é buddhista e enfatiza que ele quer ajudar as pessoas a progredir moral e espiritualmente, e não, especificamente, ganhar discípulos [182].

Nigrodha, você pode pensar: “O renunciante Gotama diz tal coisa a fim de obter pupilos”. Mas você não deve considerar dessa maneira. Deixe aquele que é seu professor permanecer seu professor. Ou você pode pensar: “Ele quer nos afastar de nossas instruções…”. Ele quer nos estabelecer nas coisas que são insalubres e reconhecidas como prejudiciais de acordo com os nossos professores…”. “Ele quer nos afastar das coisas que são saudáveis ​​e tidas como saudáveis de acordo com os professores”. Mas você não deve considerar assim. Deixe tudo o que é saudável e tido como saudável de acordo com seus professores permanecer como está. Nigrodha, eu não falo por qualquer dessas razões.

Existem Nigrodha, as coisas prejudiciais que não foram abandonadas, que maculam, e  que conduzem ao renascimento, angustiantes, produtoras de resultados dolorosos, associadas a nascimento, decadência e morte futuras. É pelo abandono dessas coisas que eu exponho o ensinamento. Se você praticar em conformidade, as coisas impuras serão abandonadas, e as coisas que levam à purificação irão crescer, e você alcançará e permanecerá, nesta vida, na plenitude do insight e da perfeição, tendo realizado isto diretamente pelo seu próprio conhecimento superior”.

Udumbarika-sīhanāda Sutta: Dīgha-Nikāya III.56-57, trad. P.D.P.

Razões para a escolher praticar o buddhismo

Th.14 O propósito da vida santa

Monges, esta vida santa não é vivida para enganar as pessoas, para tagarelar com as pessoas, para o benefício do ganho, hospitalidade e louvor, para defender uma teoria, nem com o pensamento: “Que eu seja conhecido”. Monges, a vida santa é vivida com o propósito de restrição, renúncia, desapego e cessação (do sofrimento).

Uruvela-vagga Brahmacariya Sutta: Aṅguttara-nikāya II.26, trad. P.D.P.

A natureza geral do Dhamma

“Dhamma” (pāli, skt: Dharma) é uma palavra com muitas camadas de significados. Como o segundo dos três focos da devoção buddhista (os “Três Refúgios”: veja *Th.93), onde é utilizado no singular, Dhamma significa ensinamentos do Buddha; as realidades e princípios que esses apontam como uma espécie de “Padrão Básico” para as coisas; o caminho para a libertação em relação ao sofrimento, que é o foco principal dos ensinamentos, e que está de acordo com a natureza da realidade; e o ponto culminante final do caminho, o nirvāna.

Dhamma pode igualmente significar algo como “virtude”, “justiça”, “a forma correta e apropriada”, como quando se diz de um rei que rege de acordo com o Dhamma, i.e. com retidão, com ética. Como um termo usado no plural, dhamma/dharma pode significar: qualquer qualidade mental, estado ou coisa – seu uso mais abrangente; um objeto real ou imaginário, do sentido mental; um princípio, verdade ou padrão de realidade (e.g. as quatro Verdades dos Nobres ( ver *L.27 e próximo ao fim de *Th. 138).

 

Th.12 Qualidades do Dhamma

O primeiro parágrafo desta passagem é parte de um texto que é frequentemente cantado em pāli em ambientes devocionais, bem como refletido em meditações devocionais.

“Mestre Gotama, … De que maneira é o Dhamma diretamente visível (como verdade e realidade), não atrasado (em seus resultados), convidativo à investigação, aplicável e conduzindo adiante, para ser entendido individualmente pelos sábios?”

“Brāhmaṇa, alguém animado pelo apego, vencido pelo apego… deseja de uma maneira que conduz à aflição de si mesmo, dos outros e de ambos, e ele experiencia dor mental e infelicidade. Mas quando o apego é abandonado, e ele não deseja de uma maneira que conduz à aflição de si mesmo, dos outros e de ambos, ele não experiencia dor mental e infelicidade. É dessa forma que o Dhamma é diretamente visível [O mesmo é então repetido se referindo a ser atingido ou livre de ódio ou da ilusão. O próximo, exceto um sutta, em seguida, diz a mesma coisa, exceto que substituindo “Dhamma” por “nirvāna”].

Aññatara Brāhmaṇa and Nibbāna Suttas: Anguttara-nikāya I.156­157, trad. P.H.

 

Th.13 Dhamma como profundo

Nesta passagem, o Buddha reflete sobre o Dhamma profundo que ele experimentou em seu despertar. Então, ele o explica em duas partes: o processo de originação dependente (ver passagens *Th.156–168), ou seja, uma sequência de condições que levam ao renascimento e à continuação do que é doloroso, e o nirvāna como a cessação de todas essas condições. Ao contrário do nirvāna, a condicionalidade não é algo em que se tome refúgio, mas compreendê-la é parte do Dhamma como caminho.

Este Dhamma que alcancei é profundo, difícil de ver e difícil de entender, pacífico, sublime, inatingível por mero raciocínio, sutil, para ser experimentado pelos sábios. Mas este povo se deleita no apego (especialmente para o que é familiar), desfruta do apego e se regozija com o apego. É difícil para um tal povo ver este estado, ou seja, a condicionalidade específica, o surgir dependente. E é difícil ver neste estado, ou seja, o acalmar de todas as construções volitivas, o abdicar de todas as aquisições, a destruição do desejo, o não-apego, a cessação, o nirvāna.

Ariya-pariyesanā Sutta: Majjhima-nikāya I.167, trad. P.H.

O nobre caminho óctuplo: o caminho do meio da prática

O nobre caminho óctuplo: o caminho do meio da prática

O clássico caminho antigo, e do Buddhismo Theravāda, é o Nobre Caminho Óctuplo que leva ao fim daquilo que é doloroso. Como pode ser visto na passagem de abertura *L.27, é o caminho do meio que evita ao mesmo tempo a busca pelos prazeres sensoriais e a autotortura severa que pode ser encontrada entre os ascetas. É um caminho moderado de restrição do apego aos prazeres sensoriais, seja como monástico ou pessoa laica.

Th.99 Os fatores do nobre caminho óctuplo

Esta passagem explica os fatores do caminho. Estes não são tanto “passos no caminho” quanto fatores que devem ser reunidos e desenvolvidos a um grau suficiente para que o caminho faça o seu trabalho.

E o quê, monges, é a perpectiva correta? A compreensão do doloroso (dukkha), a compreensão da originação do doloroso, a compreensão da cessação do doloroso, a compreensão do caminho para a cessação do doloroso: isso, monges, é chamado de perpectiva correta.

E qual é a decisão correta? Decidir-se pela renúncia, pela liberdade em relação à má-vontade, pela inofensividade: isso é chamado de decisão correta.

E o que é a fala correta? Abster-se de mentir, do discurso divisionista, do discurso duro e da conversa inútil: isso é chamado de fala correta.

E o que é a ação correta? Abster-se de tirar a vida, de tomar o que não é dado (roubar), da má conduta em relação aos prazeres sensoriais (abusos sexuais): isso é chamado de ação correta.

E o que é o modo de vida correto? Aqui, um nobre discípulo, tendo abandonado a subsistência desonesta, mantém a sua vida com o modo de vida correto: isso é chamado de modo de vida correto.

E o que é o esforço correto? Aqui, um monge gera desejo, esforça-se, desperta vigor, defende e exercita a sua mente para o não-surgimento de estados prejudiciais e insalubres que ainda não surgiram… para o abandono dos estados prejudiciais e insalubres que já surgiram … para o surgimento de estados saudáveis que ainda não surgiram… (e) para a manutenção, não-confusão, aumento, plenitude, desenvolvimento e culminação dos estados saudáveis que já surgiram: isso é chamado de esforço correto.

E o que é a vigilância correta?  [345] Aqui, um monge permanece, em relação ao corpo, reflexivamente observando o corpo, dotado de esforço, compreendendo claramente e de modo vigilante, removendo o intenso desejo e a infelicidade em relação ao mundo. Ele permanece, em relação às sensações, reflexivamente observando as sensações, dotado de esforço … em relação à mente, reflexivamente observando a mente, dotado de esforço … em relação aos padrões da realidade, reflexivamente observando os padrões da realidade, dotado de esforço … isso é chamado de vigilância correta.

E o que é concentração meditativa correta? Aqui, um monge – bem afastado dos desejos sensoriais, afastado dos estados prejudiciais (da mente) – entra e permanece na primeira absorção meditativa … [Segue-se uma descrição das quatro absorções meditativas, no qual ver *Th.140]. Isso é chamado a Verdade dos Nobres que é o caminho que leva  à cessação do doloroso.

Mahā-satipaṭṭhāna Sutta: Dīgha-nikāya II.311–313, trad. P.H.

 

Th.100  Dois níveis do caminho

Esta passagem torna claro que o caminho tem uma maneira preparatória preliminar, na qual a perspectiva correta é a crença no karma e no renascimento, e uma maneira nobre completa, na qual a perspectiva correta é a sabedoria, implicitamente a perspectiva correta a respeito das quatro nobres Verdades, como na passagem anterior.

A perspectiva correta, digo eu, é dupla: Existe a perspectiva correta que tem inclinações intoxicantes, dotadas de benefício kármico, amadurecendo pelo lado do apego; e existe a perspectiva correta que é nobre, sem inclinações intoxicantes, que transcendo o mundo, um fator do caminho.

E o que, monges, é a perspectiva correta que tem inclinações intoxicantes …? (É a crença:) “Existem presentes, existem oferendas, existe (auto-)sacrifício … [aí segue-se a oposição precisa da perspectiva errônea descrita na passagem *Th.56, que nega o valor da doação e da boa ação, que elas tenham efeitos kármicos conducentes a bons renascimentos, os quais podem ser conhecidos pelos meditantes sábios.] …

E o que é a perspectiva correta que é nobre..?. Sabedoria, a faculdade da sabedoria, o poder da sabedoria, o fator do despertar da investigação-das-qualidades, o fator do caminho da perspectiva correta daquele que, tendo desenvolvido o caminho nobre, é de mente nobre, dotado de uma mente sem inclinações intoxicantes, dotado com o caminho nobre.

Mahā-cattārīsaka Sutta: Majjhima-nikāya III.72, trad. P.H.

 

Th.101 Os fatores do caminho e os três treinamentos

Linguagem correta, ação correta e modo de vida correto: esses são estados incluídos no grupo da disciplina ética. Esforço correto, vigilância correta e concentração meditativa correta: esses são estados incluídos no grupo da concentração meditativa. Perspectiva correta e a decisão correta: esses são estados incluídos no grupo da sabedoria.

Cūla-vedalla Sutta: Majjhima-nikāya I.301, trad. P.H.

 

Notas:

[345] ver  * Th.138 para uma descrição completa deles.

Disciplina ética, meditação, sabedoria

As impurezas espirituais, como ganância, raiva, e ilusão, existem em três níveis: expressas por meio de ações do corpo ou da fala; em linhas ativas de pensamento ou estados conscientes da mente; e como tendências subjacentes e inclinações tóxicas não expressas, habitando as profundezas da mente. O caminho buddhista necessita acessar todos os três níveis.

A disciplina ética (sila) restringe o comportamento corporal e ações nocivas. Concentração meditativa (samādhi) treina a mente para controlar estados nocivos e cultivar os saudáveis, e sabedoria (paññā), auxiliada pela calma meditativa, pode desencavar as raízes das tendências subjacentes e inclinações tóxicas.

Th.97 A disciplina ética como base para o resto do caminho

Então veja, Ānanda, a disciplina ética saudável tem a libertação em relação ao arrependimento como propósito e benefício; a libertação em relação ao arrependimento tem o contentamento; o contentamento tem a alegria; a alegria tem a tranquilidade; a tranquilidade tem a felicidade; a felicidade tem a concentração meditativa; a concentração meditativa tem o ver as coisas como elas realmente são; o ver as coisas como elas realmente são tem o afastamento e o não-apego; o afastamento e o não-apego tem a libertação por meio do conhecimento e visão como o seu propósito e benefício. Então veja, Ānanda, a disciplina ética saudável gradualmente leva até ao cume.

Ānisaṃsa Sutta: Aṅguttara-nikāya V.2, trad. P.H.

Th.98 O desdobramento do caminho gradual nos três treinamentos

Esta passagem se concentra nas etapas graduais de treinamento espiritual em termos da disciplina ética e da meditação, como base para a sabedoria. Um brāhmana diz que há progresso gradual pela subida de uma escada, e no treinamento dos brāhmanas, arqueiros e contadores; em seguida, pergunta ao Buddha:

“Venerável senhor, é possível encontrar, da mesma maneira, um treinamento gradual, um curso gradual de ação e um caminho gradual também neste Dhamma e disciplina?”

“Brāhmana, é possível encontrar neste Dhamma e disciplina, também, um treinamento gradual, um curso gradual de ação e um caminho gradual de prática. Um inteligente treinador de cavalos, tendo obtido um jovem puro-sangue para o treinamento, em primeiro lugar o treina no toque do freio e, então, lhe dá a seguir o treinamento subsequente. Da mesma maneira, o Tathāgata obteria uma pessoa passível de contenção e a disciplinaria primeiro da seguinte maneira: ‘Venha, monge, pratique bem, e viva na observação das restrições do código de regras monásticas, sendo bem-educado e cortês, vendo o medo nas menores falhas; observe as regras de conduta e treine a si mesmo nelas’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, proteja-se nas portas dos sentidos. Tendo visto uma forma com o olho, não se agarre às suas características maiores ou menores. Pois, quando alguém vive com a faculdade da visão sem ser contida, o desejo e o desprazer, os estados maléficos e insalubres afluem, pratique a contenção em relação a isso.  Tendo escutado um som com o ouvido … cheirado uma fragrância com o nariz, experimentado um sabor com a língua, tocado um objeto tangível com o corpo e discernido uma ideia com a mente… pratique a contenção em relação a essas faculdades sensoriais’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, seja moderado na alimentação. Tendo considerado com a reflexão adequada, tome da comida assim: não para brincar, não para intoxicação, não para parecer bonito, não para decoração, mas para a mera manutenção do corpo e para o sustento, para evitar causar lesão (no corpo), como um apoio à vida santa, pensando: “Eu alivio o sentimento doloroso anterior (referente à fome) e não dou origem a um novo sentimento doloroso (referente a comer em excesso), e deixo que este seja um veículo para mim para a irrepreensibilidade e um modo de vida confortável”’.

Brāhmana, quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, viva de modo desperto. Durante o dia, andando e na postura sentada, limpe a mente dos estados obstrutivos. Na primeira vigília da noite … limpe a mente dos estados obstrutivos. No meio da noite, vire-se para a direita e durma mantendo a postura do leão, colocando um pé sobre o outro, lembrando-se, com vigilância e clara compreensão, do sinal do acordar. Na última vigília da noite, andando e na postura sentada, limpe a mente dos estados obstrutivos’.

Brāhmana, quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, seja dotado de vigilância e clara compreensão. Aja com clara compreensão quando se aproxima e se afasta, olha para a frente e olha em volta, se curva e se alonga, carrega os mantos e a tigela, come, bebe, morde e degusta, urina e defeca, quando anda, fica em pé, senta, dorme e está acordado. Aja com clara compreensão quando fala e mantém o silêncio’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Vem monge, recorre a uma moradia isolada, uma floresta, a base de uma árvore, uma montanha, uma gruta, uma caverna, um cemitério, um refúgio na selva, um espaço aberto ou um monte de folhas’. Fazendo isso, quando regressa da coleta de alimentos, depois da refeição, ele se senta de pernas cruzadas, com o corpo ereto e a observação vigilante estabelecida à sua frente”. [A passagem prossegue com a descrição de como ultrapassar os cinco obstáculos à calma meditativa e alcançar, por sua vez, as quatro absorções meditativas, tal como nas passagens *Th.127 e 140, e depois diz que alguns discípulos prosseguem para alcançar o objetivo final, enquanto outros não, da mesma maneira que algumas pessoas conseguem seguir as orientações para um destino e outras não].

Gaṇaka-moggallāna Sutta: Majjhima-nikāya  III.1–3, trad.  P.D.P.

Os cânticos sobre as qualidades do Buddha, Dhamma e Sangha que trazem proteção e bençãos

Depois da morte do Buddha, seus poderes benéficos eram buscados não apenas pelo respeito prestado às suas relíquias (e pela prática do Dhamma), mas também por se cantar certos trechos que são conhecidos por parittas, ‘proteções’. Estes cantos são conhecidos por trazer bençãos e proteções quando devotamente cantados ou ouvidos, especialmente quando cantados por monges. Os poderes destes cantos residem em: ter origem no Buddha; expressar o Dhamma; serem cantados pela Sangha; trazerem força inspiradora e atenção ao ouvinte; chamarem a atenção e a proteção dos deuses que são seguidores do Buddha; e seu passado kármico benéfico trazer seus frutos para o presente. É dito, entretanto, que eles podem beneficiar apenas aqueles que têm fé no Buddha, Dhamma e Sangha, e aqueles que não estão obstruídos por um certo karma do passado e impurezas do presente. (Milindapañha 150–154).

Th.95 O Sutta das Joias (Ratana Sutta)

Este é um texto paritta muito amado, que ilustra a ideia do poder benéfico de refletidamente proferir verdades sobre o Buddha, o Dhamma e a Sangha.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, que possam todos eles estarem felizes e ouvirem atentamente o que eu digo.

Assim, espíritos, vocês devem estar atentos. Mostrem bondade para com a raça humana: à medida que os humanos lhes fazem oferendas dia e noite, de forma diligente ofereçam-lhes proteção.

Qualquer riqueza que exista, aqui ou em outro lugar, qual for a joia mais requintada nos céus, nenhuma é igual a um Tathāgata. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Destruição (do desejo sedento), desapaixonamento, a magnífica não-morte atingida pelo Sábio dos Sākyas em concentração meditativa: não há nada para igualar a esse Dhamma. Esta joia excelente está no Dhamma; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

O que o excelente Buddha exaltou como puro e chamou a concentração meditativa de resultado imediato; a esse estado, nada igual pode ser encontrado. Esta joia excelente está no Dhamma; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Os oito indivíduos que são elogiados pelos bons, formam estes quatro pares [342]. Eles, os discípulos do Afortunado, são dignos de oferendas; o que é dado a eles dá grandes frutos. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aqueles que, sem desejo sensorial, com a mente firme, aplicam-se à mensagem de Gotama, ao alcançar seu objetivo, mergulham na não-morte, desfrutando o arrefecimento (dos fogos do desejo sedento), obtendo isso de graça. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Como o pilar de um portal fincado na terra seria inabalável pelos quatro ventos: de tal modo, eu lhe digo, é a pessoa de integridade, que – tendo compreendido as Verdades daqueles que são Nobres – vê. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aqueles que compreenderam claramente as Verdades dos Nobres, bem ensinadas por aquele de sabedoria profunda; mesmo que eles se tornem muito negligentes, eles não terão mais do que sete renascimentos futuros. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

No momento em que se atinge o insight, uma pessoa abandona três coisas; a noção de personalidade, a dúvida hesitante e o apego a regras e votos [343]. Alguém está completamente liberto dos quatro tipos de renascimentos desafortunados, e é incapaz de cometer as seis grandes ofensas [344]. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Qualquer má ação que alguém possa cometer – pelo corpo, fala ou mente – ele não pode escondê-la; uma incapacidade atribuída a alguém que tenha visto o estado (da não-morte). Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Como um bosque de árvores com botões floridos no primeiro mês do calor do verão, assim é o excelente Dhamma que ele ensinou, para os maiores benefícios, levando ao nirvāna. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aquele que é excelente, sabendo o que é excelente, dando o que é excelente, trazendo o que é excelente, além de comparação, ensinou o excelente Dhamma. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

“O velho está destruído, o novo não surge”. Aqueles cujas mentes não têm paixão por renascimentos futuros, nos quais as sementes foram destruídas, não têm desejo por fazer crescer (qualquer de tais estados). O sábio se apagou como esta lâmpada. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, o Buddha: que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, e o Dhamma: que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, e a Sangha: que possa haver bem-estar.

Ratana Sutta: Khuddakapāṭha sutta 8, e Sutta-nipāta 222–238, trad. P.H.

Th. 96 O Auspicioso Discurso sobre a Atividade (Maṅgala Sutta)

Isto diz respeito ao que é o supremo maṅgala: atividade auspiciosa que traz bênção ou boa sorte. Antes do Buddhismo, várias cerimônias eram vistas como maṅgala. O Buddha vê a prática do Dhamma como o melhor maṅgala. Este sutta reúne muitos valores buddhistas, sendo também visto como um cântico paritta – aquele que por si só traz proteção e bênção quando entoado.

Isto foi ouvido por mim. Em certa ocasião, o Bem-Aventurado estava em Sāvatthī, no bosque de Jeta, no parque monástico (doado por) Anāthapiṇḍika. Então, ao avançar da noite, uma certa deidade, de radiância inigualável, iluminando todo o bosque de Jeta, aproximou-se do Bem-Aventurado. Tendo se aproximado e respeitosamente o cumprimentado, ela permaneceu em pé de um lado. Ali permanecendo, a deidade se dirigiu ao Bem-Aventurado com um verso:

“Muitas deidades e humanos têm pensado sobre ações auspiciosas almejando o bem-estar. Diga-me o que é a atividade auspiciosa suprema”.

(O Buddha respondeu:)

“Não se associar com tolos, mas associar-se com sábios, e honrar aqueles que merecem honra. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Morar em lugares apropriados, e ter feito o que é karmicamente benéfico no passado, também com auto-aplicação apropriada. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ser dotado de habilidades práticas e de aprendizado, bem treinado em autodisciplina, com um bom modo de falar. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ajudar mãe e pai, cuidar de esposa e filhos, e uma ocupação sem conflitos. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ser generoso, agir de acordo com o Dhamma, importar-se com os parentes, e agir sem culpa. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Aversão e rejeição do mal, abster-se de bebidas inebriantes, ser cuidadoso em todas as coisas. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ter respeito, humildade, contentamento e gratidão, e ouvir o Dhamma no momento apropriado. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Aceitação paciente, disponibilidade para receber a correção, encontrar-se com renunciantes, discutindo o Dhamma no momento apropriado. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Prática ardente e a vida santa (celibato), ver as Verdades dos Nobres, e a realização do nirvāna. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Tocada pelos altos e baixos do mundo, a mente estar sem pesar, imaculada, segura. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Tendo feito essas coisas, em todos os lugares invictos, eles vão para todos os lugares em segurança. Essa é sua atividade auspiciosa suprema”.

Maṅgala Sutta: Khuddaka-pāṭha, Sutta 5, e Sutta-nipāta 258–269, trad. P.H.

Notas:

[342] Os tipos de pessoas nobres, ou aquelas com níveis iniciais ou elevados de insight libertador: ver *Th. 199 e 201

[343] Ver *Th. 200.

[344] Matar a própria mãe, o próprio pai, ou um arahant, ferir um Buddha, causar divisão na Sangha ou professar doutrinas de outro professor.

Atividades Devocionais

Th.94 Monumentos para as relíquias do Buddha (stūpas)

Nesta passagem o Buddha explica que após sua cremação, as relíquias remanescentes de seu corpo deverão ser enterradas numa stūpa, ou túmulo-relíquia, para que sejam um foco de devoção para as pessoas. Ver *V.26 para uma história tibetana sobre fé em relíquias.

Uma stūpa para o Tathāgata deverá se construída numa grande intersecção de quatro vias. E aqueles que oferecerem uma grinalda, um incenso ou um pó de perfume ali, ou ali se curvarem, ou ali esclarecerem suas mentes: isso contribuirá por um longo prazo para seu bem-estar e felicidade. …

E por qual razão seria um Tathāgata, arahant e Buddha perfeitamente desperto merecedor de uma stūpa? (Com este pensamento): “Esta é a stūpa do Tathāgata, arahant e Buddha perfeitamente desperto”, muitas pessoas iluminarão suas mentes. Tendo iluminado suas mentes ali, então – na dissolução do corpo, após a morte – elas reaparecerão num bom destino, num mundo celestial.

Mahā-parinibbāna Sutta: Dīgha-nikāya II.141–142, trad. P.H.

Tomando refúgio no Buddha, Dhamma e Sangha

Th.93 Tomando Refúgio

A seguinte passagem é a fórmula para a ‘tomada de refúgio’, uma ideia encontrada em *L.40, 57, 58 e *Th.110. Recitada em pāli, após uma afirmação de louvor ao Buddha, é necessário tomar cada um como ‘refúgio’: o Buddha, o Dhamma (ensinamentos, caminho e o resultado a que isso leva) e a Sangha – a comunidade espiritual, com a comunidade monástica como seu coração. A noção de um ‘refúgio’, aqui, não é a de um lugar para se esconder, mas de algo que quando pensamos a respeito é capaz de purificar, elevar e fortalecer o coração. A orientação para estes três guias de uma maneira melhor de se viver é experimentada como um alegre refúgio de calma, uma firme ‘ilha em meio a uma inundação’, em contraste com os problemas da vida. Os ‘refúgios’ lembram ao buddhista da calma, da sabedoria, das pessoas espiritualizadas e dos estados da mente e, assim, ajudam a gerar tais estados. O valor do Buddha, Dhamma e Sangha é denotado pelo fato de que eles também são conhecidos como as ‘Três Joias’: tesouros espirituais de valor supremo. A tríplice repetição da fórmula de refúgio separa a recitação em relação aos usos comuns da linguagem e garante que a mente se estabeleça sobre o significado de cada afirmação pelo menos uma vez. Os buddhistas laicos geralmente recitam a fórmula de refúgio e em seguida os cinco preceitos éticos (*Th.110) consistindo isso da expressão de fé e compromisso com os ensinamentos do Buddha.

Reverência ao Bem-Aventurado, arahant, Buddha perfeitamente desperto.

Ao Buddha eu vou como refúgio.
Ao Dhamma eu vou como refúgio.
À Sangha eu vou como refúgio.

Pela segunda vez ao Buddha eu vou como refúgio.
Pela segunda vez ao Dhamma eu vou como refúgio.
Pela segunda vez à Sangha eu vou como refúgio.

Pela terceira vez ao Buddha eu vou como refúgio.
Pela terceira vez ao Dhamma eu vou como refúgio.
Pela terceira vez à Sangha eu vou como refúgio.

Saraṇā-gamanaṃ: Khuddaka-pāṭha 1, trad. P.H.

O papel e a natureza da fé

O papel e a natureza da fé

Th.89 A fé é a primeira das cinco faculdades espirituais

Fé, no sentido de confiança verdadeira – uma qualidade mais do coração do que uma crença cognitiva – tem um papel importante no buddhismo, embora geralmente não tão central como em algumas religiões.

Monges, existem estas cinco faculdades. Quais cinco? A faculdade da fé, a faculdade do vigor, a faculdade da vigilância, a faculdade da concentração meditativa, a faculdade da compreensão (ou sabedoria). E o quê, monges, é a faculdade da fé? Aqui, monges, um discípulo dos nobres é uma pessoa de fé, alguém que tem fé no despertar do Tathāgata [como no *Th.1].

Vibhaṅga Sutta: Saṃyutta-nikāya V.196–197, trad. P.H.

 

Th.90 A natureza da fé

Esta passagem enfatiza que a fé conduz alguém tanto à calma quanto ao encorajamento a prosseguir a fim de atingir os estágios da perfeição espiritual.

“Venerável, qual o sinal característico da fé?” “A fé, grande rei, tem a serenidade e o salto para frente como seus sinais característicos… Quando a fé surge, ela suspende os impedimentos (para a calma meditativa)… como uma pedra que depura a água… Grande rei, o praticante mais dedicado, ao ver que as mentes dos outros estão livres, salta para frente (para atingir) os frutos que são a entrada-na-correnteza, o uma-vez-retornante, o não-retornante e o direcionamento ao estado de arahant… assim como quando uma multidão de pessoas, ao ver como um homem forte atravessa (um rio na enchente,) também o atravessa!”

Milindapañha 34-6, trad. P.H

 

Th. 91 O papel da fé e da compreensão

O primeiro atingimento espiritual pode ser realizado por uma pessoa que enfatiza a compreensão do Dhamma ou a fé no Buddha. Dito isso, embora alguns discípulos sejam relativamente mais desenvolvidos em compreensão ou em fé, todos necessitam de suficiente desenvolvimento em todas as cinco faculdades. Aqui, a segunda passagem explica que a fé precisa ser guiada pela compreensão, e a qualidade cognitiva da compreensão precisa estar estabelecida pela qualidade do coração e o compromisso da fé.

Qual tipo de pessoa é um seguidor pelo Dhamma? Aqui certa pessoa … aceita os ensinamentos proclamados pelo Tathāgata com certo grau de compreensão apreciativa por meio de sua sabedoria. Além disso, ela tem estas cinco faculdades: as faculdades da fé, energia, vigilância, concentração meditativa e sabedoria … Qual tipo de pessoa é um seguidor pela fé? Aqui certa pessoa … tem certo grau (suficiente) de fé e amor pelo Tathāgata. Além disso, ela tem estas cinco faculdades: as faculdades da fé, energia, vigilância, concentração meditativa e sabedoria …

Kīṭāgiri Sutta: Majjhima-nikāya I.479, trad. P.H

 

Algo particularmente recomendado é equilibrar fé com compreensão, bem como concentração meditativa e vigor. Pois alguém forte em fé e fraco em compreensão está confuso em sua confiança, não tendo boas bases para ela. Aquele forte em compreensão, mas fraco na fé, tende a aliar-se a uma esperteza enganosa, tornando-se tão difícil de curar quanto alguém cuja doença tem como causa o remédio. Com o equilíbrio de ambos os elementos, a pessoa tem confiança apenas quando há fundamento para tal.

Visuddhimagga [341] ch. IV, seção 47, p.139, trad. P.H.

 

Th.92 A fé torna-se forte naqueles que atingiram o estado nobre

Aqui, monges, o discípulo que é nobre é dotado de confiança confirmada no Buddha, deste modo: … [como no *Th.1].

Ele é dotado de confiança confirmada no Dhamma, deste modo: “O Dhamma é diretamente visível (em relação à verdade e à realidade), não demora (em seus resultados), convida à investigação, é aplicável e conduz para frente, a ser entendido individualmente pelo sábio”.

Ele é dotado de confiança confirmada na Sangha, deste modo: … [como no *Th.199].

Rājā Sutta: Saṃyutta-nikāya V.343, trad. P.H. e P.D.P.

 

Notas:
[341] Esse é um influente texto não canônico compilado por Buddhaghosa, o comentarista theravāda do século 5.