Praticando o caminho do meio

V.32 O caminho do meio como liberdade em relação a dois extremos

Esta passagem descreve o entendimento mahāyāna do caminho do meio como uma visão não-conceitual da realidade, que é livre dos pontos de vista extremos de permanência e niilismo (no sentido da completa não-existência – uma ideia semelhante à expressa em *Th.168 e também encontrada em *M.63). Em um nível mais sutil, também é entendido como liberdade em relação a quaisquer concepções, mesmo que seja a respeito da identidade da mente. Eventualmente, o caminho do meio acaba por ser o estado não-conceitual em si mesmo, que é a perfeição da sabedoria [385].

Apreender fenômenos como existentes ou apreendê-los como não-existentes são, ambos, defectivos, porque isso representa cair nos extremos de permanência ou niilismo. Como dito no “Tratado Fundamental sobre o Caminho do Meio” (de Nāgārjuna): “‘Existência’ é a visão da permanência; ‘não-existência’ é a visão do niilismo” (MMK XV.10a). Cair nos extremos de permanência e niilismo é ser iludido, e se alguém está iludido, não pode alcançar a libertação. Na “Grinalda Preciosa” ele também diz: “Apreender esse mundo-miragem, quer seja como existente, quer seja como inexistente, é ilusão e, se há ilusão, não pode haver libertação” (RV I.56).

Então, se alguém pergunta como a libertação pode ser alcançada, a resposta é que se pode alcançar a libertação por meio da prática do caminho do meio, que é livre dos dois extremos. Como a “Grinalda Preciosa” diz: “Aquele que conhece os fenômenos como eles são (ou seja, não produzidos ou não nascidos) [386] não confiará em qualquer nenhum deles (extremo da existência ou da não-existência), mas alcançará a libertação” (RV I.57b). O “Tratado Fundamental sobre o Caminho do Meio” também diz: “Portanto, o sábio não deve aderir a qualquer um, seja (ao extremo da) existência ou não-existência” (MMK XV.10b).

Pode-se perguntar o que é exatamente o caminho do meio, que evita os dois extremos. Ele é descrito assim no “Sūtra Monte de Nobres Joias”: “Kāśyapa! Como deve um bodhisattva se aplicar corretamente ao Dharma? Ele deve se aplicar ao caminho do meio que é a correta compreensão dos fenômenos. E qual é a compreensão correta dos fenômenos? Kāśyapa, é assim:

Que eles são permanentes é um extremo; que eles são impermanentes é o outro extremo [387]. O que está no meio entre esses dois extremos é indiscernível e imperceptível; isso não pode ser indicado ou conceituado. Kāśyapa, este é o caminho do meio, que é a compreensão correta dos fenômenos. Kāśyapa! (A visão de um permanente) eu é um extremo, a de um não-eu (como a negação absoluta de qualquer tipo de eu) é o outro extremo. O que está no meio entre esses dois extremos é indiscernível e imperceptível; isso não pode ser indicado ou conceituado. Kāśyapa, este é o caminho do meio, que é a correta compreensão dos fenômenos. Kāśyapa! Saṃsāra é um extremo, o nirvāna (como cessação completa) é o outro extremo. O que está no meio entre esses dois extremos é indiscernível e imperceptível; isso não pode ser indicado ou conceituado. Kāśyapa, este é o caminho do meio, que é a correta compreensão dos fenômenos” [388].

Além disso, Ṥāntideva diz: “A mente não pode ser encontrada tanto dentro, fora (o corpo) ou em qualquer outro lugar, nem misturada, nem separada dele, e assim não pode existir de modo algum. Os seres sencientes, portanto, estão naturalmente no nirvāna” [389] (BCA IX.103b-104).

Portanto, evitando a conceituação em termos dos dois extremos é o que é chamado de caminho do meio, mas o caminho do meio também não deve ser conceituado. Sem apreendê-lo como algo “lá fora”, é permanecer além do intelecto. Atiśa também disse: “Considere o seguinte: O pensamento passado já deixou de existir, o pensamento sobre o futuro ainda não chegou a existir, e o pensamento atual é extremamente evasivo. A mente não tem qualquer cor ou forma; semelhante ao céu, ela não tem qualquer identidade concreta” [390]. Além disso, o “Ornamento da Clara Realização” diz: “Não podendo ser encontrado em ambos os extremos de fora ou de dentro, nem entre os dois, sendo o mesmo no passado, presente e futuro, isto é descoberto como sendo a perfeição da sabedoria”.

“O Precioso Ornamento da Liberação”, pgs. 285-87, trad. T.A.

 

Notas:

[385] Mais sobre isso na filosofia Mahāyāna do Caminho do Meio (Madhyamaka) , veja *M.138 e *V.75–6.

[386] Veja *V.76.

[387] Embora as coisas sejam impermanentes em sentido relativo, em última análise, elas não têm qualquer identidade própria (ver *V.76), e, portanto, elas não podem sequer ser caracterizadas como “impermanentes”.

[388] A citação é do Kāśyapa-parivarta Sūtra da coleção de sūtras Ārya-Ratnakūṭa. O seu interlocutor é Mahā-kāśyapa, um dos discípulos principais do Buddha e que dizem ter herdado a linhagem mahāyāna.

[389] Esta investigação diz respeito à identidade da mente, que se descobre como não existindo (inerentemente) em qualquer lugar dentro ou fora do corpo. Se a mente não pode ser encontrada em nenhum lugar, não pode ser contaminada por qualquer impureza, assim sendo a sua verdadeira natureza deve ser o nirvāna. Ver também a nota de rodapé seguinte.

[390] Esta passagem não identificada de Atiśa aponta que a mente não pode ser encontrada em nenhum lugar no passado, presente ou futuro. Assim, para além de ser não localizada no espaço, em termos do corpo (ver acima), nem pode ser encontrada em qualquer lugar no tempo. Sendo totalmente indeterminada, a sua verdadeira natureza é o nirvāna.