O professor espiritual

V.30 A necessidade de um professor espiritual

No capítulo terceiro do seu “O Precioso Ornamento da Liberação”, Gampopa apresenta três símiles para o papel de um professor na vida espiritual de uma pessoa. O terceiro símile é uma versão estendida da parábola do Buddha sobre a balsa/barco (do Dharma, ver *Th.23 e *M.20) e é especialmente interessante.

O amigo espiritual é como um guia quando você viaja num caminho desconhecido; como uma escolta quando você viaja num lugar perigoso; ou como um barqueiro quando você atravessa um grande rio. …

Quando se atravessa um grande rio, se você embarca na balsa ou barco sem um barqueiro, você pode não conseguir alcançar a outra margem e se afundar na água ou ser levado pela corrente. Mas se você tiver um barqueiro, seus esforços o vão ajudar a alcançar a outra margem. Da mesma maneira, quando atravessando o oceano do saṃsāra, você pode embarcar no barco do supremo Dharma, mas pode se afundar no saṃsāra ou ser levado pela sua corrente a menos que tenha um amigo espiritual que é como um barqueiro. É por isso que é dito: “A menos que você tenha um remador, o seu barco não consegue chegar à outra margem. Você pode ter todas as boas qualidades, mas sem um mestre você não consegue alcançar o fim do vir-a-ser (saṃsāra)” [384]. Portanto, se você procura um amigo espiritual, que é como um barqueiro, você certamente chegará ao outro lado do saṃsāra, a terra do nirvāna. Tal como declarado no “Sūtra da Grinalda de Flores”: “O amigo espiritual é como um barqueiro que salva você do oceano do saṃsāra”. É por isso que você deve procurar um amigo espiritual, que é como um guia, uma escolta e um barqueiro.

“O Precioso Ornamento da Liberação”, pgs.31–4, trad. T.A.

 

V.31 As qualidades de um professor perfeito

Antes de aceitar alguém como amigo espiritual, deve-se examinar as qualidades espirituais da pessoa para se certificar de que não vai ser desviado por um falso “mestre”. Esta passagem contém algumas orientações dadas pela tradição para realizar essa avaliação.

Um amigo espiritual, que é um ser ordinário (ao invés de um Buddha ou um grande bodhisattva) deve ter oito, ou quatro ou (pelo menos) duas boas qualidades.

O primeiro conjunto (de qualidades) está listado em “Estágios do Bodhisattva”: “Se o amigo espiritual de um bodhisattva tem oito qualidades, ele é totalmente perfeito em todos os aspectos. Quais são essas oito qualidades? Ele defende a disciplina do bodhisattva, ele ouviu muitas escrituras do bodhisattva, tem realização, tem compaixão pelos outros, ele é destemido, paciente, nunca deprimido e eloquente”.

O segundo conjunto vem do “Ornamento dos Sūtras Mahāyāna”: “Um perfeito professor bodhisattva tem vasta erudição, pode eliminar dúvidas, é confiável e ensina as duas realidades” (MAS XII.5). (Explicação:) Como ele ouviu muitos ensinamentos, o professor tem vasta erudição. Porque ele tem grande sabedoria, ele pode eliminar dúvidas dos outros. Porque ele se comporta como um ser supremo, ele é confiável. E ele ensina as duas realidades, aquelas que se caracterizam por completa impureza (saṃsāra) e total purificação (nirvāna).

O terceiro é descrito em “Engajando-se na Conduta para Despertar”: “Um verdadeiro amigo espiritual é bem versado no Mahāyāna e tem excelente disciplina bodhisattvica. Nunca o deixe nem por causa de sua própria vida” (BCA V.102). Ou seja, ele deve ser especialista em ensinar o Mahāyāna e ele deve manter o voto de bodhisattva.

Depois de ter encontrado tal amigo espiritual, você deve servi-lo de três maneiras: prestando-lhe serviço respeitoso, mostrando-lhe sua fiel devoção e praticando diligentemente (seus ensinamentos). …

“O Precioso Ornamento da Liberação”, pgs.38–9, trad. T.A.

 

Notas:

[384] Fonte desconhecida.