Fé

V.24 Três tipos de fé

Esta passagem distingue três tipos de fé, que se desenvolvem estágio após estágio. “Lúcida” – em oposição à cega – é a fé instruída que geralmente é acionada por uma experiência religiosa de reverência. Fé “inspiradora” é um desejo intenso para entrar no caminho e obter a experiência pessoal do Dharma. À medida que a pessoa prossegue no caminho, a fé “convicta” nas qualidades extraordinárias das Três Joias é adquirida e ocorre uma confiança total nelas.

Assim como o refúgio é a porta de entrada para todos os ensinamentos, a estrada para o refúgio é a fé. Portanto, é extremamente importante desenvolver uma fé interior firme antes de buscar o refúgio. Existem três tipos de fé: a fé lúcida, a fé inspiradora e a fé convicta.

A “fé lúcida” é a que surge quando somos repentinamente movidos para a fé por meio de uma experiência lúcida da grande compaixão do Buddha, que pode acontecer decorrente de fatos como entrar em um templo onde há várias representações do corpo, da fala e da mente do Buddha; ou em um encontro com pessoas santas e mestres espirituais face a face; ou ouvir sobre as grandes qualidades dessas pessoas e histórias pessoais de libertação.

“Fé inspiradora” é a que surge quando ouvimos sobre as dores do saṃsāra e dos reinos inferiores, e queremos ser livres deles; quando ouvimos sobre os prazeres dos reinos superiores e a libertação, e queremos alcançá-los; quando aprendemos sobre os benefícios kármicos de ações saudáveis, e queremos concretizá-los; e quando vimos as desvantagens de ações prejudiciais, e queremos evitá-las.

“Fé convicta” é a que surge quando compreendemos as boas qualidades e a extraordinária energia espiritual das Três Joias Preciosas, e confiamos nelas do fundo do nosso coração; quando tivermos percebido que elas são o refúgio mais precioso, que são infalíveis em todos os momentos e circunstâncias, e que podemos contar com elas em tudo o que fazemos – seja se estamos felizes ou tristes, doentes ou saudáveis, vivos ou mortos. É uma fé de total confiança em que não se tem nenhuma esperança ou confiança para além das Três Joias. Como foi dito pelo Precioso Mestre de Oḍḍiyāna (Padmasaṃbhava): “Por meio da fé de total confiança, vocês recebem a energia espiritual. Quando suas mentes estão livres da dúvida, vocês podem alcançar tudo que quiserem”.

“As Palavras de meu Professor Perfeito”, pgs.272–73, trad. T.A.

 

V.25 O significado da fé

A fé é uma fonte de energia espiritual indispensável para o desenvolvimento de boas qualidades. A velocidade do progresso de alguém no caminho está diretamente relacionada com o grau de sua fé e devoção.

A fé é como uma semente que dá origem a todos os bons aspectos das qualidades positivas. Se você não tem fé, é como se tivesse uma semente queimada pelo fogo. Como se diz em um sūtra: “Pessoas sem fé não podem produzir qualidades positivas, assim como uma semente queimada não pode dar origem a um broto verde”.

Dessa maneira, a fé é a principal das sete riquezas dos nobres [377]. Como é dito: “A roda preciosa da fé gira dia e noite na estrada do que é salutar”. Sendo esse o caso, é semelhante à gema mais preciosa em um tesouro, e portanto uma fonte inesgotável de boas qualidades; é como os pés com os quais trilhamos o caminho da libertação e as mãos com as quais coletamos todas as qualidades benéficas em nosso fluxo mental. Como é dito: “A fé é uma gema suprema, tesouro e pés; como  mãos que recolhem o que é salutar”.

Portanto, ainda que as Três Joias tenham uma quantidade inconcebível de compaixão e de energia espiritual, sua habilidade de entrar em nosso  fluxo mental depende apenas de nossa fé e devoção. Se tivermos fé e devoção imensas, então a compaixão e as bençãos das Três Joias que podem entrar em nós também serão enormes. Da mesma maneira, se tivermos fé e devoção medíocres, então apenas uma quantidade medíocre de compaixão e bençãos podem entrar (em nosso  fluxo mental); e se tivermos nada mais que um pouco de fé e de devoção, então apenas uma minúscula quantidade de sua compaixão e benção serão capazes de entrar em nós. Mas se não tivermos fé e devoção alguma, então não receberemos compaixão ou benção. Se não tivermos fé, mesmo encontrar o próprio Buddha e ficar sob seus cuidados seria inútil – como foi com o monge Sunakṣatra, cuja história já foi contada [378] ou com o primo de Buddha, Devadatta [379].

Ainda hoje, se alguém o invoca com fé e devoção sinceras, o Buddha aparecerá diante de si e abençoará com poder espiritual. Para a compaixão do Buddha não há perto ou longe; como é dito: “Pois quem quer que pense nele com fé, o Buddha se apresentará para lhe garantir empoderamento e bençãos”. E o Grande Mestre de Oḍḍiyāna também disse: “Para as pessoas com fé, tanto homens quanto mulheres, Padmasaṃbhava partirá – ele dormirá do lado de fora de suas portas. Minha vida nunca terá um fim – Padmasambava aparecerá diante de cada pessoa com fé” [380]

“As Palavras de meu Professor Perfeito”, pgs.273-5, trad. T.A.

 

V.26 Uma parábola de fé

A história a seguir demonstra o extraordinário poder da fé. Ela também lança uma luz sobre o culto buddhista das relíquias (veja *Th.94). Ela mostra como a sua eficácia espiritual pode vir a depender da fé dos devotos, independentemente da origem física desses objetos sagrados – que pode às vezes ser duvidosa.

Quando alguém está convencido de sua própria fé, a compaixão do Buddha pode se manifestar em qualquer coisa. Ter fé é ilustrado pela parábola da anciã que se iluminou por meio de um dente de cachorro.

Era uma vez uma anciã que tinha dois filhos. Um deles, muitas vezes ia para a Índia a negócios. Sua velha mãe disse a ele: “A Índia é o país onde o Buddha perfeitamente desperto alcançou o despertar no assento de Vajra. Poderia, por favor, trazer-me uma relíquia sagrada da Índia para que eu possa fazer prostrações a ela?” Ela lhe pediu muitas vezes, mas o filho sempre esquecia sobre o seu pedido e nunca lhe trazia qualquer coisa. Um dia, quando seu filho estava saindo para a Índia de novo, ela disse a ele: “Desta vez, se você não me trouxer alguma relíquia sagrada da Índia para as minhas prostrações, eu irei me matar e morrerei na sua frente!”

O filho viajou à Índia, concluiu o seu negócio e voltou para casa, esquecendo-se do pedido de sua mãe. Foi apenas quando estava quase chegando em sua casa que ele se lembrou do que ela havia dito. “O que faço agora?”, ele se perguntou. “Eu nada trouxe para as prostrações de minha velha mãe. Se eu chegar em casa sem uma relíquia sagrada, ela cometerá suicídio”. Olhando ao seu redor, ele notou o crânio de um cão que jazia na beira da estrada. Ele arrancou um dos dentes do cão e o envolveu em seda. Quando chegou em casa, ele o deu para a sua mãe, dizendo: “Este é um dos caninos do Buddha. Caso se prostre diante dele, ele responderá às suas orações”.

A mulher acreditou que o dente do cão fosse, na verdade, o dente canino do Buddha e foi inspirada pela fé. Como ela fazia prostrações e oferendas a ele o tempo todo, muitas relíquias desceram sobre o dente do cão. Quando a anciã morreu, esferas de luzes do arco-íris e outros sinais (de alta realização espiritual) apareceram. Mesmo que o dente do cão não tivesse qualquer poder espiritual, como a anciã, por meio do poder de sua grande fé, acreditava que era o verdadeiro dente de Buddha, este estava imbuído da bênção do Buddha, de maneira que, eventualmente, não era diferente do dente canino do Buddha.

“As Palavras de meu Professor Perfeito”, pgs.275–76, trad. T.A.

 

Notas:

[377] O restante são a disciplina ética, o aprendizado, a generosidade, o pudor moral,  a preocupação com as consequências e a sabedoria.

[378] Veja WPT p.147.

[379] Veja *L.43 e 44 em suas tramoias para tentar matar o Buddha.

[380] A Escola Nyingmapa do Buddhismo Tibetano considera Padmasaṃbhava como sendo o mestre fundador de sua tradição, um “segundo Buddha”.