A mente do despertar (bodhi-citta)

Bodhi-citta é o conceito mais importante do Buddhismo Mahāyāna e Vajrayāna (veja *M.71-6). Significa a mente (citta) orientada para a obter o perfeito despertar/iluminação (bodhi) do Buddha perfeitamente desperto em nome do benefício dos outros, e refere-se à mente de um bodhisattva em diferentes estágios de desenvolvimento espiritual. A introdução no caminho é marcada pelo que é chamado de “surgimento da mente do despertar”, entendido como dar origem à firme aspiração para atingir o despertar – no sentido do estado de Buddha perfeitamente desperto – para o benefício dos outros. Além disso, o despertar da mente é uma orientação mental compassiva que deve ser fonte de práticas voltadas para o avanço em direção ao estado de Buddha e para ajudar os outros a fazerem o mesmo.

V.33 Definição da mente do despertar

Fazer surgir a mente do despertar é definido como (dar nascimento) ao desejo pelo verdadeiramente completo despertar para o benefício dos outros. Como dito no “Ornamento da Clara Realização”: “Fazer surgir a mente (do despertar) é o desejo (de obter) o completo despertar para o benefício dos outros”.

“O Precioso Ornamento da Liberação”, pg.134, trad. T.A.

 

V.34 Ṥāntideva sobre os benefícios da mente do despertar

“Engajando-se na Conduta para o Despertar” pertence à literatura mais famosa do Buddhismo Mahāyāna. Da autoria do grande monge-filósofo Ṥāntideva no século oitavo (AEC), a obra tem inspirado tanto os buddhistas mahāyānas como vajrayānas desde então. Os versos abaixo são do primeiro capítulo (intitulado “Os benefícios da mente do despertar”) e são particularmente bem conhecidos, tendo sido mencionados em vários textos posteriores sobre a mente do despertar.

  1. Esta liberdade e conexão [391] é muito difícil de encontrar. Se eu não usar esta oportunidade agora para alcançar o que pode ser realizado por um ser humano, será que vou tê-la novamente?
  2. Como um relâmpago de luz, vindo das nuvens numa noite escura, iluminando tudo por um instante — é assim a raridade, pelo poder do Buddha, de uma visão penetrante e benéfica ocorrer no mundo.
  3. Isso é porque os pensamentos benéficos são sempre débeis, enquanto que os pensamentos nocivos são poderosos e irresistíveis. Poderão eles ser dominados por qualquer coisa saudável que não seja a mente do despertar?
  4. Isto é o que o Senhor Capacitado, que a cultivou por muito tempo, achou ser o mais benéfico – isso pode ajudar uma incomensurável multidão de pessoas a facilmente atingirem o mais elevado estado de bem-aventurança.
  5. Se você deseja derrubar as centenas de dores da existência, dissipar toda a dor dos seres sencientes, e também experimentar muita alegria (no caminho), então não deve abandonar a mente do despertar.
  6. No instante em que a mente do despertar surgir naqueles atormentados cativos na prisão do saṃsāra, neste preciso momento eles serão chamados de “príncipes (ou princesas) do Tathāgata”, e serão honrados pelas deidades e humanos do mundo.
  7. Você deve determinadamente apreender que isso é conhecido como a mente do despertar porque é como o melhor elixir para produzir ouro; este corpo impuro que você tem é tomado e transformado por ela no precioso corpo de um Buddha.
  8. Como é tão valioso e tem sido bem testado pelo líder único dos seres (o Buddha) na sua infinita sabedoria, aqueles que desejem impedir o renascimento no saṃsāra, devem firmemente apreender esta preciosa mente do despertar.
  9. Cada ação benéfica é como o plantar de uma bananeira; ela produz os frutos mas, em seguida, morre. A árvore da mente do despertar, no entanto, produz frutos o tempo todo; em vez de morrer, ela se multiplica.
  10. Mesmo que você tenha cometido terríveis delitos — uma vez que coloque a sua confiança na mente do despertar, tal como um guarda-costas, você estará instantaneamente a salvo do grande perigo (de cair nos reinos inferiores). Por que os negligentes não depositam a confiança nela?
  11. Ela certamente consumirá (os efeitos de) todas as principais ações errôneas num instante, como uma conflagração (que tudo consome) no final dos tempos …

“Engajando-se na Conduta para o Despertar”, I.4-14, trad. T.A.

 

V.35 Tipos de mente do despertar I

Após celebrar esses benefícios, Ṥāntideva prossegue distinguindo entre dois tipos de mente do despertar.

  1. Resumindo, a mente do despertar é conhecida por ser de dois tipos: a mente do despertar da aspiração e a mente do despertar do engajamento.
  2. Quem é habilidoso deve compreender a distinção entre as duas da mesma maneira que compreende a diferença entre desejar ir (a algum lugar) e realmente estar no caminho.
  3. A mente do despertar da aspiração, enquanto no saṃsāra, é muito proveitosa, mas não concede um benefício kármico contínuo como faz a mente do engajamento.

“Engajando-se na Conduta para o Despertar”, I.15-17 – trad. T.A.

 

V.36 Tipos de mente do despertar II

Além de conter uma explicação muito pé no chão sobre a distinção acima, esta passagem introduz uma classificação ainda mais fundamental da mente do despertar em tipos “relativo” e “derradeiro”. O último nasce de uma visão direta da realidade, numa fase posterior do caminho.

Quando classificados de acordo com sua natureza, existem dois tipos de mente do despertar: relativo e derradeiro.

Dentro da mente do despertar relativa, há dois outros subtipos: a mente da aspiração e a mente do engajamento. Como se diz no “Engajando-se na Conduta para o Despertar”: “O mais hábil deve compreender a distinção entre os dois da mesma maneira que a diferença entre desejar ir (a algum lugar) e realmente estar a caminho” (BCA I.16 ). Se você quiser ir a algum lugar como Lhasa, por exemplo, primeiro você tem que se decidir: “Eu vou a Lhasa”.  Exatamente assim, primeiro você tem que pensar: “Eu farei todos os seres sencientes atingir o estado de Buddheidade completa”. Esta é a mente da aspiração, que é como desejar ir (a algum lugar). Então você prepara as provisões da viagem, carrega os cavalos e outras preparações para a viagem real a Lhasa, e, finalmente, cai na estrada. Da mesma maneira, a fim de fazer todos os seres sencientes atingir o posto de Buddheidade completa, você decide praticar a generosidade, manter a disciplina ética, cultivar a paciência, fazer um esforço sustentado, desenvolver absorção meditativa e treinar sua mente com sabedoria; e, então, você começa de fato a praticar essas seis perfeições. Essa é a mente do engajamento, que é como estar de fato no caminho.

Ambas as mentes, de aspiração e de engajamento, são mentes do despertar relativas. Por meio do treinamento por um longo tempo nas vias de acumulação e conexão [392], confiantes na mente do despertar relativa, você finalmente entrará na via da visão [393] onde terá a realização direta do vazio – conhecimento sem qualquer elaboração conceitual – e entenderá a natureza de fato de todos os dharmas. Tal realização é o surgimento da mente do despertar derradeira.

“As Palavras de meu Professor Perfeito”, pgs.354–55, trad. T.A.

 

V.37 Tomando o voto de aspiração

A seguinte passagem do capítulo nove de “O Precioso Ornamento da Liberação” de Gampopa contém uma breve liturgia para tomar o voto da mente do despertar no início do caminho do bodhisattva.

O professor deve instruir o aluno da seguinte maneira: “Medite sobre a amorosidade e a compaixão por um tempo, pensando, ‘Onde quer que o espaço se expanda, há seres sencientes. Onde quer que haja seres sencientes, há impurezas. Onde quer que haja impurezas, há ações errôneas. Onde quer que haja ações errôneas, há sofrimento. Todos os seres sencientes sofrendo em dor foram meus pais e mães (em existências anteriores: ver *V.13). Todos os meus pais e as mães foram muito gentis comigo. Agora todos os meus amáveis pais ​​e mães estão se afogando no oceano do saṃsāra. Eles são atormentados por uma incrível quantidade de sofrimento. Não há ninguém para protegê-los. Quão gravemente fatigados estão, quão angustiados! O que eu poderia fazer para torná-los felizes? O que eu poderia fazer para libertá-los do sofrimento?’. Então medite sobre o seguinte pensamento: ‘Hoje eu sou incapaz de ajudá-los. A fim de agir em seu benefício, devo atingir o estado de um Buddha perfeitamente desperto, que não tem mais falhas, que é completo com todas as boas qualidades, e que é capaz de agir para o bem de todo o mundo dos seres sencientes’.”

Então, o discípulo deveria repetir três vezes após o professor: “Todos os Buddhas e bodhisattvas que habitam as dez direções, por favor, ouçam-me! Professor, por favor, ouça-me! Eu, de tal-e-qual-nome – (agora faço este voto) na fundação do que é saudável, derivada, nesta e em outras vidas, da generosidade, disciplina ética e meditação que realizei, pedida aos outros para realizar, ou que me alegrei a tal respeito. Assim como os Tathāgatas, os Buddha-arhants perfeitamente despertos, os Bem-Aventurados e os grandes bodhisattwas que agora habitam os estágios mais elevados (do caminho), despertaram primeiramente (no início) a mente direcionada ao grande, insuperável, totalmente perfeito despertar, da mesma maneira, eu – chamado fulano-de-tal – a partir de agora até alcançar o coração do despertar, despertarei a mente direcionada ao grande, insuperável e totalmente perfeito despertar a fim de libertar os seres sencientes que não foram enviados (para a outra margem), para libertar os seres que não foram libertos, para aliviar a todos aqueles que não foram aliviados, para conduzir ao nirvāna aqueles que não foram conduzidos ao nirvāna’.”

“O Precioso Ornamento da Liberação”, pgs.166–68, trad. T.A.

 

V.38 Apreender totalmente a mente do despertar

Tais liturgias como acima podem ter sido inspiradas pela literatura indiana clássica, exemplos como os citados abaixo – outro conjunto de versos famosos do “Engajando-se na Conduta para o Despertar”, sobre a dedicação heróica de um bodhisattva.

  1. Por meio das ações saudáveis ​​que acumulei, possa o sofrimento de todos os seres sencientes ser dissipado!
  2. Tanto quanto os seres que vagam não forem recuperados de sua doença, que eu possa ser o medicamento, o médico e sua atendente de enfermagem!
  3. Chovendo sobre eles uma chuva de alimento e bebida, que eu possa eliminar a dor da fome e da sede, e no éon da fome [394] que eu possa me transformar em alimento e bebida!
  4. Que eu possa me transformar num tesouro inesgotável para todos aqueles que são pobres e indigentes, e que eu possa estar prontamente disponível para eles com todos os tipos de artigos e necessidades!
  5. A fim de ajudar a todos os seres sencientes, que eu possa oferecer-lhes, sem reserva meu corpo, minhas posses, e (a fruição de) minhas ações benéficas no passado, presente e futuro!
  6. Abandonando tudo, vou (eventualmente) para o nirvāna – minha mente terá ido para além do sofrimento; já que tudo tem de ser dado de qualquer maneira, o melhor é dar tudo para os seres sencientes!
  7. Eu já ofereci esse corpo em benefício de todos os seres encarnados; deixem que o mate, abusem dele ou o torturem como quiserem!
  8. Ainda que possam usar meu corpo como um brinquedo, um objeto de desprezo e zombaria, por que eu deveria me importar com isso quando eu já me desapeguei dele?
  9. Deixe-os fazerem o que quiserem desde que isso não lhes cause nenhum dano; sempre que eu estiver sendo apenas observado (por seres), que eles possam nunca deixar de ser beneficiados!
  10. Caso sintam raiva de mim, caso tenham fé em mim, que isso seja sempre uma fonte para a realização de todos os seus desejos! [395]
  11. Quem fala mal de mim, quem não me faz mal algum, quem me deprecia – que todos eles tenham a sorte de alcançar o despertar!
  12. Que eu possa ser um abrigo para os sem-teto, um guia para aqueles que se iniciam no caminho; possa eu me tornar uma jangada, um barco e uma ponte para os que desejam atravessar!
  13. Que eu possa me tornar uma ilha para aqueles que procuram uma ilha, uma cama para os que desejam ter um descanso; e que eu possa me tornar um servo para todos os seres encarnados que precisam ser servidos!
  14. Possa eu me tornar uma joia dos desejos, uma cornucópia, um feitiço milagroso, uma panaceia, uma árvore dos desejos, e uma vaca de abundância para os seres encarnados!
  15. Assim como a terra e os outros elementos da natureza e assim como o espaço, que eu possa sempre ser uma fonte de sustento para os muitos tipos de incontáveis ​​seres sencientes!
  16. Possa eu me tornar, assim, uma fonte de vida, de todas as formas, em todos os reinos dos seres sencientes permeados pelo espaço – até que todos eles atinjam o nirvāna!

“Engajando-se na Conduta para o Despertar”, III.7-22, trad. T.A.

 

V.39 Três degraus de coragem

Esta passagem distingue três tipos de mente do despertar baseados na coragem, que se referem ao grau de determinação de um bodhisattva em ajudar os seres sencientes. O tipo mais corajoso acaba por ser aquele que quer ser o último a atingir o estado de Buddha.

Existem três tipos de mente do despertar de acordo com os graus de coragem (espiritual).

(1) Um rei quer primeiro superar os seus rivais, liderar o seu exército à vitória e tornar-se ele próprio um rei, só então ele pretende preocupar-se com os seus súditos. Da mesma maneira, alguém fazendo surgir a mente do despertar, primeiro deseja alcançar o estado de Buddha ele mesmo, e só então ele deseja conduzir todos os seres sencientes ao estágio de um Buddha.

(2) Um barqueiro quer alcançar a outra margem juntamente com todos os passageiros e a tripulação do seu barco. Da mesma maneira, alguém que faz surgir a mente do despertar de um barqueiro, quer atingir o estado de Buddha juntamente com todos os seres sencientes.

(3) Pastores conduzem o seu rebanho de ovelhas à sua frente, checando primeiro se há grama e água suficiente e se não estão ameaçadas por lobos e outros predadores. Seguindo depois delas, eles próprios andam atrás. Da mesma maneira, aqueles que fazem surgir a mente do despertar de um pastor, querem primeiro dirigir todos os seres sencientes dos três reinos para o estado de Buddha; apenas então eles desejam se tornar Buddhas.

Entre aqueles três, o primeiro, o tipo real – chamado de “a mente do despertar da alta aspiração” – é o menos corajoso. O segundo tipo, o barqueiro – chamado de “a mente do despertar do excelente conhecimento” – é moderadamente corajoso. Diz-se ser a maneira pela qual alguém como o nobre Maitreya fez surgir sua mente do despertar. O tipo pastor – chamado de “a mente do despertar incomparável” – é o mais corajoso de todos. Diz-se ser a maneira pela qual alguém como o nobre Mañjuśrī fez surgir sua mente do despertar.

“As Palavras de meu Professor Perfeito”, pgs.352-53, trad. T.A.

 

Notas:

[391] A preciosa vida humana de liberdade e conexão (ver * V.14).

[392] Os dois primeiros das cinco séries de caminhos no Buddhismo Mahāyāna, os de: acumulação, conexão, visão, desenvolvimento e o do adepto. Ver nota de rodapé v.59 de *V.10.

[393] O terceiro dos cinco caminhos. No Mahāyāna é também o ponto de entrada na primeira (nobre) fase do bodhisattva.

[394] Existem três períodos de tempo mais curtos que surgem no final de cada “éon intermediário” (aprox. 16.798.000 anos segundo o Abhidharmakośa) durante o qual um mundo existe antes do final (ver *Th.63) – o éon da fome, o éon da doença e o éon da discórdia.

[395] Isso significa que eles podem atingir o que traz a verdadeira realização, isto é, o progresso no caminho.