Os cânticos sobre as qualidades do Buddha, Dhamma e Sangha que trazem proteção e bençãos

Depois da morte do Buddha, seus poderes benéficos eram buscados não apenas pelo respeito prestado às suas relíquias (e pela prática do Dhamma), mas também por se cantar certos trechos que são conhecidos por parittas, ‘proteções’. Estes cantos são conhecidos por trazer bençãos e proteções quando devotamente cantados ou ouvidos, especialmente quando cantados por monges. Os poderes destes cantos residem em: ter origem no Buddha; expressar o Dhamma; serem cantados pela Sangha; trazerem força inspiradora e atenção ao ouvinte; chamarem a atenção e a proteção dos deuses que são seguidores do Buddha; e seu passado kármico benéfico trazer seus frutos para o presente. É dito, entretanto, que eles podem beneficiar apenas aqueles que têm fé no Buddha, Dhamma e Sangha, e aqueles que não estão obstruídos por um certo karma do passado e impurezas do presente. (Milindapañha 150–154).

Th.95 O Sutta das Joias (Ratana Sutta)

Este é um texto paritta muito amado, que ilustra a ideia do poder benéfico de refletidamente proferir verdades sobre o Buddha, o Dhamma e a Sangha.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, que possam todos eles estarem felizes e ouvirem atentamente o que eu digo.

Assim, espíritos, vocês devem estar atentos. Mostrem bondade para com a raça humana: à medida que os humanos lhes fazem oferendas dia e noite, de forma diligente ofereçam-lhes proteção.

Qualquer riqueza que exista, aqui ou em outro lugar, qual for a joia mais requintada nos céus, nenhuma é igual a um Tathāgata. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Destruição (do desejo sedento), desapaixonamento, a magnífica não-morte atingida pelo Sábio dos Sākyas em concentração meditativa: não há nada para igualar a esse Dhamma. Esta joia excelente está no Dhamma; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

O que o excelente Buddha exaltou como puro e chamou a concentração meditativa de resultado imediato; a esse estado, nada igual pode ser encontrado. Esta joia excelente está no Dhamma; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Os oito indivíduos que são elogiados pelos bons, formam estes quatro pares [342]. Eles, os discípulos do Afortunado, são dignos de oferendas; o que é dado a eles dá grandes frutos. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aqueles que, sem desejo sensorial, com a mente firme, aplicam-se à mensagem de Gotama, ao alcançar seu objetivo, mergulham na não-morte, desfrutando o arrefecimento (dos fogos do desejo sedento), obtendo isso de graça. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Como o pilar de um portal fincado na terra seria inabalável pelos quatro ventos: de tal modo, eu lhe digo, é a pessoa de integridade, que – tendo compreendido as Verdades daqueles que são Nobres – vê. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aqueles que compreenderam claramente as Verdades dos Nobres, bem ensinadas por aquele de sabedoria profunda; mesmo que eles se tornem muito negligentes, eles não terão mais do que sete renascimentos futuros. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

No momento em que se atinge o insight, uma pessoa abandona três coisas; a noção de personalidade, a dúvida hesitante e o apego a regras e votos [343]. Alguém está completamente liberto dos quatro tipos de renascimentos desafortunados, e é incapaz de cometer as seis grandes ofensas [344]. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Qualquer má ação que alguém possa cometer – pelo corpo, fala ou mente – ele não pode escondê-la; uma incapacidade atribuída a alguém que tenha visto o estado (da não-morte). Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Como um bosque de árvores com botões floridos no primeiro mês do calor do verão, assim é o excelente Dhamma que ele ensinou, para os maiores benefícios, levando ao nirvāna. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Aquele que é excelente, sabendo o que é excelente, dando o que é excelente, trazendo o que é excelente, além de comparação, ensinou o excelente Dhamma. Esta joia excelente está no Buddha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

“O velho está destruído, o novo não surge”. Aqueles cujas mentes não têm paixão por renascimentos futuros, nos quais as sementes foram destruídas, não têm desejo por fazer crescer (qualquer de tais estados). O sábio se apagou como esta lâmpada. Esta joia excelente está na Sangha; por esta verdade, que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, o Buddha: que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, e o Dhamma: que possa haver bem-estar.

Quaisquer que sejam os espíritos aqui reunidos, sejam da terra ou do céu, reverenciemos o Tathāgata honrado por deidades e humanos, e a Sangha: que possa haver bem-estar.

Ratana Sutta: Khuddakapāṭha sutta 8, e Sutta-nipāta 222–238, trad. P.H.

Th. 96 O Auspicioso Discurso sobre a Atividade (Maṅgala Sutta)

Isto diz respeito ao que é o supremo maṅgala: atividade auspiciosa que traz bênção ou boa sorte. Antes do Buddhismo, várias cerimônias eram vistas como maṅgala. O Buddha vê a prática do Dhamma como o melhor maṅgala. Este sutta reúne muitos valores buddhistas, sendo também visto como um cântico paritta – aquele que por si só traz proteção e bênção quando entoado.

Isto foi ouvido por mim. Em certa ocasião, o Bem-Aventurado estava em Sāvatthī, no bosque de Jeta, no parque monástico (doado por) Anāthapiṇḍika. Então, ao avançar da noite, uma certa deidade, de radiância inigualável, iluminando todo o bosque de Jeta, aproximou-se do Bem-Aventurado. Tendo se aproximado e respeitosamente o cumprimentado, ela permaneceu em pé de um lado. Ali permanecendo, a deidade se dirigiu ao Bem-Aventurado com um verso:

“Muitas deidades e humanos têm pensado sobre ações auspiciosas almejando o bem-estar. Diga-me o que é a atividade auspiciosa suprema”.

(O Buddha respondeu:)

“Não se associar com tolos, mas associar-se com sábios, e honrar aqueles que merecem honra. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Morar em lugares apropriados, e ter feito o que é karmicamente benéfico no passado, também com auto-aplicação apropriada. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ser dotado de habilidades práticas e de aprendizado, bem treinado em autodisciplina, com um bom modo de falar. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ajudar mãe e pai, cuidar de esposa e filhos, e uma ocupação sem conflitos. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ser generoso, agir de acordo com o Dhamma, importar-se com os parentes, e agir sem culpa. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Aversão e rejeição do mal, abster-se de bebidas inebriantes, ser cuidadoso em todas as coisas. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Ter respeito, humildade, contentamento e gratidão, e ouvir o Dhamma no momento apropriado. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Aceitação paciente, disponibilidade para receber a correção, encontrar-se com renunciantes, discutindo o Dhamma no momento apropriado. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Prática ardente e a vida santa (celibato), ver as Verdades dos Nobres, e a realização do nirvāna. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Tocada pelos altos e baixos do mundo, a mente estar sem pesar, imaculada, segura. Essa é uma atividade auspiciosa suprema.

Tendo feito essas coisas, em todos os lugares invictos, eles vão para todos os lugares em segurança. Essa é sua atividade auspiciosa suprema”.

Maṅgala Sutta: Khuddaka-pāṭha, Sutta 5, e Sutta-nipāta 258–269, trad. P.H.

Notas:

[342] Os tipos de pessoas nobres, ou aquelas com níveis iniciais ou elevados de insight libertador: ver *Th. 199 e 201

[343] Ver *Th. 200.

[344] Matar a própria mãe, o próprio pai, ou um arahant, ferir um Buddha, causar divisão na Sangha ou professar doutrinas de outro professor.