Tomando o refúgio no Buddha, no Dharma e na Sangha

M.49 Como expressar devoção aos Três Refúgios

Esta passagem diz que um bodhisattva laico deve tomar os refúgios praticando-os de maneira a desenvolver as qualidades que levam ao estado de Buddha, respeitando tudo que diz respeito ao Dharma, e respeitando buddhistas não-mahāyānas, especialmente monásticos, apesar de não desejar trabalhar no seus níveis de prática.

Como deve um bodhisattva chefe-de-família tomar refúgio no Buddha? Ele deve pensar: “Desejo adquirir o corpo de Buddha, adornado com as trinta e duas características corporais de um Buddha [349]. Desejo adquirir as raízes necessárias ao desenvolvimento das trinta e duas características de um grande homem. Para desenvolver essas marcas, eu me dedicarei com vigor. Assim, chefe-de-família, é como um bodhisattva chefe-de-família deve tomar refúgio no Buddha.

Como deve um bodhisattva chefe-de-família tomar refúgio no Dharma? Chefe-de-família, um bodhisattva respeita o Dharma e aqueles que ensinam o Dharma. Ele apóia o Dharma. Anseia pelo Dharma. Ele se delicia nos prazeres supremos do Dharma. Ajuda o Dharma. Habita no Dharma. Mantém o Dharma na mente. Ele protege o Dharma. Permanece firme no Dharma. Ele louva o Dharma. Permanece praticando o Dharma. Faz o Dharma crescer. Roga que o Dharma cresça. Vê o Dharma como a sua força. Fortifica-se com as armas do Dharma. Dedica-se inteiramente ao Dharma. Pensa: “Quando tiver atingido o despertar perfeito e insuperável, levarei o verdadeiro Dharma igualmente a todos os humanos, deidades e semideidades”. Assim, chefe-de-família, é como um bodhisattva chefe-de-família deve tomar refúgio no Dharma.

Chefe-de-família, como deve um bodhisattva chefe-de-família tomar refúgio na Sangha? Chefe-de-família, quando o bodhisattva vê aquele que entra-na-corrente, que retorna-uma-vez, que não-retorna, um arahant ou uma pessoa comum que pratica o veículo dos discípulos [350] ele respeita a todos. Imediatamente se levanta para saudá-los, cumprimenta-os com palavras gentis e voz suave, reverencia-os caminhando em torno deles, sempre mantendo-os à sua direita. Deveria pensar: “Quando eu tiver atingido o despertar perfeito e insuperável, ensinarei o Dharma para que os outros possam desenvolver boas qualidades. Embora eu os reverencie, meu coração não habita entre eles”. Assim, chefe de família, é como um bodhisattva chefe-de-família deve tomar refúgio na Sangha.

Ugra-paripṛcchā, seção 19 do Mahā-ratnakūṭa Sūtra, Taishō vol.11, texto 310, pgs.472c22–473a09, trad. T.T.S. e D.S.

M.50 Porque existem Três Refúgios

Filho de boa família, é com a intenção de eliminar o sofrimento, de erradicar as impurezas, e de atingir a insuperável benção do nirvāna que alguém se refugia no … Buddha, no Dharma e na Sangha.

O Buddha é o que ensinou o caminho para eliminar as impurezas, a causa do sofrimento. O Dharma é a libertação última, a eliminação das impurezas, a causa do sofrimento. A Sangha é a comunidade que está praticando o caminho que leva à eliminação das impurezas, à causa do sofrimento e ao atingimento da verdadeira libertação. Alguns podem dizer que somente há um refúgio.

Isso não é correto. Por que não? Porque se um Tathāgata aparece no mundo ou não, o verdadeiro Dharma está sempre presente, mesmo que não seja discernido. Ele só pode ser discernido quando um Tathāgata aparece no mundo. Não se deveria, portanto, tomar refúgio apenas no Buddha. Se um Tathāgata aparece no mundo ou não, o verdadeiro Dharma está sempre presente, mesmo que não haja ninguém para torná-lo conhecido. É a comunidade de discípulos do Buddha que recebe o Dharma. Não se deveria, portanto, tomar como refúgio apenas a Sangha.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap.20, pg.1061b04–14, trad. T.T.S. e D.S.

M.51 Tomando refúgio no Buddha

Os seres vivos são ingratos. Tathāgatas aparecem no mundo, brilhando com sabedoria e compaixão para dissipar a escuridão.

Com uma mente cheia de grande compaixão, ele vê todos os seres vivos sofrendo dor imensurável, eternamente ligados ao mundo tríplice [351].

Ninguém, além do Buddha, o Supremo Mestre entre todos os homens e deidades, é um refúgio.

Avataṃsaka Sūtra, Taishō vol.9, texto 278, pg.444b15-20, trad. T.T.S. e D.S.

M.52 O Buddha como um refúgio-chave

Nesta passagem a Rainha Śrīmālā diz ao Buddha que o mais alto refúgio é o refúgio no Buddha/Tathāgata, porque é por tomar o refúgio no Buddha que se toma o refúgio no Dharma e na Sangha. A Sangha é constituída por aqueles que seguem os vários caminhos buddhistas que miram o Buddha; o Dharma é o caminho para atingir o corpo-de-Dharma do Buddha. O refúgio no Tathāgata compreende os outros dois, e é eterno, a realidade última.

O refúgio eterno, o refúgio infinito até o fim dos tempos, o refúgio para aqueles que não transcenderam o mundo, mas que não dependem do mundo, é o Tathāgata, o arhant, o Buddha perfeitamente desperto.

O Dharma é  o caminho do veículo único [352]. A Sangha é a comunidade dos três veículos. Esses dois refúgios não são refúgios finais, eles são apenas refúgios parciais. Por que é assim? O caminho do veículo único está preocupado com a realização absoluta do corpo-de-Dharma. Não há nada superior ao  corpo-de-Dharma do Veículo Único.

Por medo [353],  as comunidades dos três veículos buscam o refúgio no Tathāgata. Elas praticam o caminho do não-apego, visando o insuperável perfeito despertar. Eis porque esses dois refúgios não são refúgios finais, mas limitados.

Os seres vivos que foram treinados pelo Tathāgata, que tomaram o refúgio no Tathāgata, e que alcançaram a outra margem do Dharma, desenvolvem mentes de alegre fé, e tomam refúgio no Dhamma e na Sangha. Esses são os dois refúgios. Tomar refúgio no Dharma e na Sangha não é a mesma coisa que tomar refúgio no Tathāgata. Tomar refúgio na realidade última é tomar refúgio no Tathāgata. Por que isso? Não há diferença entre o refúgio no Tathāgata e os outros dois. O Tathāgata é, em verdade, o refúgio tríplice.

Śrīmālādevī-siṃhanāda Sūtra, Taishō vol.12, texto 353, cap.5, pg. 221a02–15; cf., Taishō vol. 11, texto 310, pg.676b16–29, trad. T.T.S. e D.S.

M.53 A Sangha e o Dharma como caminho para os Três Refúgios

Fazer oferendas à Sangha é honrar ambos: a Joia do Buddha e a Joia da Sangha. Contemplar as maravilhosas qualidades do Dharma do Buddha é honrar plenamente as Três Joias.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap.22, pg.1065a20–22, trad. T.T.S. e D.S.

M.54 Tathāgata – relíquias e sabedoria perfeita

Esta passagem considera a adoração de relíquias físicas do Buddha (veja *Th.94) como importante, mas como secundária em relação à devoção à perfeição da sabedoria.

Śakra [354] diz: “Bem-Aventurado, não é que eu não venere as relíquias do Tathāgata. Eu certamente venero as relíquias do Tathāgata, Bem-Aventurado. As relíquias do Tathāgata que tenham surgido, Bem-Aventurado, dessa perfeição da sabedoria, são adoradas. Portanto, Bem-Aventurado, adorando essa perfeição de sabedoria a pessoa também está adorando todas as relíquias do Tathāgata. Por que é assim? É porque as relíquias do Tathāgata surgiram da perfeição da sabedoria. É como no Sudharmā, o salão das deidades, Bem-Aventurado. Quando estou sentado em meu assento divino, meus filhos divinos cuidam de mim.

Quando não estou sentado lá, meus filhos divinos, em reverência a mim, honram o meu assento, circundando-o, e partem. Por que isso? É porque naquele assento, Śakra, o primeiro entre as deidades, ensina o Dharma às deidades dos Trinta-e-três. Da mesma maneira, ó Bem-Aventurado, a perfeição da sabedoria é causa e condição exaltadas que provocam a onisciência do Tathāgata, o arhant, o Buddha perfeitamente desperto. As relíquias do Tathāgata dependem da onisciência, mas elas não são uma causa ou condição para o surgimento do conhecimento. Portanto, Bem-Aventurado, a perfeição da sabedoria, que é a causa do conhecimento da onisciência, é adorada por meio das relíquias do Tathāgata.

Aṣṭasāhaśrikā Prajñāpāramitā Sūtra, cap.4, trad. do sânscrito por D.S.

M.55 Devoção ao Avalokiteśvara

Esta passagem louva o bodhisattva celestial Avalokiteśvara e o seu poder para ajudar quando chamado. O seu nome significa “O Senhor que Observa (em Compaixão)”, e ele é visto como a personificação da compaixão. Em chinês, ele é conhecido como Guanyin (Kuanyin) e em tibetano como Chenresig. Os ditos poderes protetores que chegam de sua chamada são semelhantes àqueles atribuídos aos cânticos paritta no Buddhismo Theravāda (ver *Th.95). Os maravilhosos poderes atribuídos ao se lembrar de Avalokiteśvara, tais como fogos que são emitidos e espadas que se quebram, podem ser vistos talvez como meios poéticos atribuídos ao poder da compaixão para mudar corações e ações. O Chan/Zen, em geral, entende-os como termos espirituais puramente internos: por exemplo, o “perigo no oceano”, i.e., uma tempestade, é ira, “fogo” é desejo, “grilhões” são simplesmente os do medo, e os animais apenas ameaçam aquele que têm má vontade. Da mesma maneira, o poder dos parittas do Theravāda podem ser vistos com base no poder das verdades morais.

2. Ele olha para todas as partes do mundo. Sua promessa é como um oceano. … Ouçam agora aos atos de Avalokiteśvara.

3. Por inúmeras e incontáveis centenas de éons, seu voto foi purificado por inúmeros milhares de Buddhas. Deixe-me dizer o que ouvi.

4. Os seres vivos que o ouvem ou veem e dele se recordam com frequência infalivelmente eliminarão sua dor e tristeza neste mundo.

5. Se uma pessoa de mente maligna tentar lhe matar atirando-o em uma cova ardente, lembre-se de Avalokiteśvara, e o fogo se apagará e se extinguirá.

6. Se estiver em perigo no oceano, morada dos nāgas, monstros marinhos e deidades, lembre-se de Avalokiteśvara, e nunca será capturado pelo Rei do Oceano. …

9. Se estiver rodeado de inimigos portando espadas em suas mãos, com intenção de lhe fazer mal, lembre-se de Avalokiteśvara e as mentes deles instantaneamente serão preenchidas com amor benevolente.

10. Se estiver de pé no local da execução, prestes a ser morto, lembre-se de Avalokiteśvara, e então a espada se despedaçará. …

11. Se você estiver preso ou algemado por correntes de ferro ou de madeira, lembre-se de Avalokiteśvara e todas as correntes se quebrarão. …

14. Se você estiver cercado por animais ferozes e aterrorizantes, com dentes afiados, lembre-se de Avalokiteśvara e eles se dispersarão em todas as direções. …

17. Ele vê seres vivos sofrendo com muitas centenas de tipos de dor, oprimidos por muitos tipos de dor. Ele olha para eles com o poder do seu entendimento purificado e os protege.

18. Ele possui poderes sobrenaturais extraordinários e vasto entendimento, e é bem treinado na aplicação de meios habilidosos. Ele se manifesta em toda parte, em todos os mundos nas dez direções [355] e nos campos de Buddha sem exceções.

19. Ele sempre acalma os seres vivos que renasceram em assustadores reinos inferiores de existência, no inferno, como animais ou oprimidos pelo nascimento, envelhecimento, doença e morte. …

20. Você [356] fica radiante e belo. Você fica radiante com a  amorosidade. Você fica radiante com a excelência da sabedoria e do entendimento. Você fica radiante com compaixão. Você fica radiante com a pureza. Você é bem visto, de face amigável e bela radiância.

21. Você é completamente sem mácula, luz pristina; incandescente com a luz do sol do conhecimento; a luz de uma chama que o vento não pode soprar. Resplandecente, você ilumina o mundo.

22. Você ruge sua compaixão, suas boas qualidades e sua amorosidade. Com belas qualidades, você é adorável e totalmente confiável. Você extingue os fogos das impurezas nos seres vivos, chovendo o néctar da chuva do Dharma.

23. Se você [357] estiver envolvido em contendas, brigas e disputas, ou no meio de uma batalha terrível, lembre-se de Avalokiteśvara, e as hostes de seus perversos inimigos serão pacificadas.

24. Sua voz é como o trovão. Sua voz é como um tambor. Sua voz é como o oceano. Sua voz maravilhosa é como a de Brahmā. Sua voz supera este mundo. Lembre-se de Avalokiteśvara.

25. Lembre-se dele, lembre-se dele, e anseie por ele. Na morte, nas dificuldades, nos perigos, que o puro ser de Avalokiteśvara seja sua proteção, o seu refúgio e sei santuário.

Saddharma-puṇḍarīka Sūtra, cap.24, trad. do sânscrito por D.S.

Notas:

[349] Ver *L.38.

[350] Aquele que tem a obtenção do estado de Arhant como seu objetivo, em contraste com o Mahāyāna, “o grande veículo”, que é o caminho do bodhisattva para o estado de Buddha.

[351] Ou seja, a totalidade da existência condicionada: ver “três reinos” no Glossário.

[352] Isso leva todos, eventualmente, à Buddheidade, mesmo que possam, inicialmente, visar objetivos inferiores.

[353] Das várias formas de sofrimento no ciclo de renascimentos repetitivos.

[354] O Rei das Deidades (pāli Sakka).

[355] Os oito pontos da bússola, bem como o nadir e o zênite – em outras palavras, em todas as direções.

[356] Aqui, o texto dirige-se diretamente a Avalokiteśvara.

[357] Neste ponto o texto volta a se dirigir ao ouvinte, ao invés do próprio Avalokiteśvara.