O caminho do meio

M.58 A necessidade do esforço que seja nem muito relaxado nem muito forçado

Esta passagem faz um simples, mas importante apontamento sobre o esforço espiritual (cf. * L.32)

Havia um renunciante que recitava as escrituras à noite e que sofria de melancolia. Sua mente estava cheia de remorso e dúvida, e ele queria voltar à vida comum. O Buddha chamou o renunciante e lhe perguntou: “Quando você vivia como um chefe de família, o que você fazia?” Ele respondeu: “Eu costumava tocar alaúde”. O Buddha disse: “O que acontecia se as cordas estivessem demasiado frouxas?” Ele respondeu: “Não produziam som algum”. O Buddha perguntou: “E se as cordas estivessem demasiado tensas?” Ele disse: “Os sons seriam curtos e secos”. O Buddha perguntou: “E se as cordas estivessem nem muito frouxas nem muito tensas?” Ele disse: “Os sons seriam claramente audíveis”. O Buddha disse ao renunciante: “Praticar o caminho é dessa mesma maneira. Se você ajustar a sua mente apropriadamente, você será bem sucedido no caminho”.

“Sūtra das Quarenta e Duas Seções”/ Sishierzhang jing, seção 33, Taishō vol.17, texto 784, pg.723c13-17, trad. D.S.

 

M.59 A necessidade de uma atitude equilibrada

Esta passagem vê a prática do caminho do meio como não ficar preso nas construções mentais e tampouco dogmaticamente evitar qualquer construção mental. Sua natureza, no entanto, é difícil de indicar.

Suvikrāntavikrāmi, as construções mentais são um extremo, e evitar as construções mentais é o outro extremo. Bodhisattvas evitam esses dois extremos. Se bodhisattvas não se engajam em extremos ou não-extremos, eles tampouco veem o caminho do meio. Se eles percebem o caminho do meio, e se engajam nele, então eles se engajam em um extremo. O caminho do meio não é algo para se engajar, ser visto ou se tornar manifesto.

Mais do que isso, Suvikrāntavikrāmi, você deve saber que o que é conhecido como caminho do meio nada mais é que o caminho óctuplo. Este caminho não deve ser abordado por meio de apreender ou observar fenômenos.

Mahā-prajñāpāramitā Sūtra, Taishō vol. 7, texto 220, pg. 1092a25–b03, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.60 O nobre caminho óctuplo

Esta passagem considera os fatores do caminho como desdobramentos do primeiro, a visão correta – uma perspectiva de não apego que vê que as coisas não têm qualquer essência fixa.

Anantajñāna, qual é o significado do caminho e da purificação do caminho? O caminho é o nobre caminho óctuplo, ou seja,  perspectiva correta, pensamento correto, fala correta, ação correta, modo de vida correto, esforço correto, vigilância correta e concentração meditativa correta. Perspectiva correta é a erradicação da falsa noção de que a personalidade está de alguma forma relacionada com um eu essencial. Ela se encontra além do escopo de todas as noções. Se todas as noções são completamente purificadas em todas as situações, isso permite que se reconheçam todas as formas de pensamento correto. Ambos, o pensamento particularizado e o generalizado não são realmente pensados [358]. Evite tanto o pensamento particularizado quanto o generalizado, sem ser indulgente com maneiras erradas de pensar, abolindo o pensamento errado. Essa perspectiva leva ao modo de vida correto. Considerar a ideia de subsistência, considerar a pureza de subsistência, praticar a subsistência pura, resulta numa perspectiva correta da atividade purificada do corpo, da atividade purificada da fala e da atividade purificada da mente. Engajar-se em ação correta, com uma perspectiva correta da atividade da fala, permite ver e entender o que é a fala correta. Praticar a fala correta leva a uma perspectiva purificada do esforço correto. Engajar-se em esforço correto com base na perspectiva correta conduz à vigilância que não envolve a memória, fixando a mente em qualquer coisa ou apego. Estabelecer-se na vigilância correta com uma mente purificada capacita a alguém manter uma perspectiva correta da concentração meditativa. Na concentração meditativa, não há nada em que se apoiar, no entanto, isso leva a purificar a própria perspectiva sobre a concentração meditativa.

Anantajñāna, quando bodhisattvas, grandes seres, veem as coisas dessa maneira, eles atingem uma perspectiva correta purificada em todas as situações, permanecendo no caminho da pureza. Tal caminho da pureza é o caminho que um bom homem pratica. Ele é louvado pelo sábio, amado pelos nobres e elogiado pelos  Tathāgatas.

Varma-vyūha-nirdeśa, seção 7 do Mahā-ratnakūṭa Sūtra, Taishō vol.11, texto 310, pgs.120c29–121a16, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.61 O caminho do meio evita a separação dualista das coisas

Esta passagem vê o caminho como sendo baseado na percepção de que tudo é vazio de uma natureza inerente/existência inerente, devido à profunda interrelação entre todos os fenômenos, de tal forma que uma separação dualista das coisas, até mesmo entre o nirvāna e o mundo do sofrimento, não é válida.

Praticar o caminho do meio com insight em relação à essência da não-dualidade é conhecer a verdade do caminho. … Compreender que não se pode, em última análise, se apoderar do caminho que conduz para fora do sofrimento, e ver com a compreensão correta que tudo é vazio de existência inerente, é compreender o percurso do caminho do meio.

“O Sūtra das Seis Perfeições Nomenais e Fenomenais”/Da-sheng-li-qu-liu-boluomiduo jing, Taishō vol.8, texto 261, pg. 913c23–914a01, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.62 O princípio da originação dependente e o caminho do meio I

Esta passagem é baseada na ideia de que a originação dependente de todos os fenômenos significa que eles não existem de forma sólida e imutável, substancial, e nem são completamente inexistentes – eles formam um fluxo efêmero cuja natureza é difícil de conceituar. O caminho do meio da prática se baseia no conhecimento deste tipo de caminho do meio de existência, e de não estar ligado às coisas como se sua natureza fosse diferente disso.

A originação dependente é nem ser nem não-ser. Ela não é real nem irreal. Entrar no caminho do meio é dito ser o não-apego.

Mahā-avataṃsaka Sūtra, Taishō vol.10, texto 279, pg. 316c21–22, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.63 O princípio da originação dependente e o caminho do meio II

Esta passagem confirma que a natureza condicionada, interdependente dos fenômenos (ver *Th.156, segs, *M.130 e 138) é tão profunda que não pode ser compreendida por meio de conceitos e de pensamento convencional, pois é inefável e idêntica ao nirvāna. Entretanto, é útil descrevê-la como tendo uma natureza de ‘caminho do meio’ que está além dos extremos da completa não-existência e da existência sólida, substancial (cf. *Th.168 e *V.32). Verdadeiramente compreendidos, os fenômenos não têm uma localização espacial, mas as pessoas comuns não compreendem isso, e se agarram a uma das duas visões extremas a respeito da natureza da realidade.

Todos os fenômenos estão incluídos na originação dependente. Nada que está incluso na originação dependente pode ser chamado de um meio ou de um extremo. Se uma pessoa deixar de lado as expressões convencionais, ela não pode se segurar a nada, nem mesmo ao mínimo fenômeno.

Anantavyūha, agora você deveria contemplar a não-existência dos fenômenos [359], o Dharma sem extremos, que é conhecido como o caminho do meio. Como uma expressão de meios habilidosos, é dito que existe sabedoria desperta que mantém o Dharma, mas não há como segurar alguém que mantém o Dharma. Como não há nada para se segurar, não há expressão convencional.

Anantavyūha, você e todos os sábios devem compreender que a verdadeira essência de todos os fenômenos é que eles não vêm, eles não vão, eles são indivisíveis, incessantes, não são iguais nem diferentes e, finalmente, chegam à outra margem de todos os fenômenos. Não há fenômeno qualquer que seja que não chegue na outra margem. A outra margem é o nirvāna. A essência de todos os fenômenos é, sem dúvida, nirvāna. É por isso que se diz serem eles inefáveis. É apenas de modo convencional que se pode falar sobre o caminho do meio. Este caminho do meio é o caminho que leva ao nirvāna. No entanto, não há nirvāna para onde se possa ir. Se nirvāna fosse algo para onde se pudesse ir, todos os fenômenos estariam envolvidos em ir ou vir. A natureza de todos os fenômenos, é a mesma. É por isso que se diz que nirvāna não é algo para o qual se possa ir. Isso, Anantavyūha, é o que é chamado o caminho do meio.

Este caminho do meio, no entanto, não é apenas o caminho do meio. Por que é assim? Porque ele nem aumenta nem diminui. Ele não envolve extremo algum, ele não envolve apego algum. Se algo não envolve extremos, por que existem extremos? Os fenômenos não possuem localização e, assim sendo, por natureza não têm extremos. As pessoas comuns não veem isso, prendem-se a um ponto de vista de que existem extremos. Por causa desta visão de que existem extremos, elas não podem atingir a libertação, porque na realidade nada é localizado em lugar algum.

É apenas como uma aplicação de habilidade nos meios, Anantavyūha, que o Tathāgata resolveu, em sua sabedoria, ensinar o caminho do meio.

Ananta-mukha-pariśodhana-nirdeśa, seção 2 do Mahā-ratnakūṭa Sūtra, Taishō vol.11, texto 310, pgs.29c15–30a04, trad. T.T.S. e D.S.

 

Notas:

[358] Isso carece de qualquer essência separada que é ‘pensada’.

[359] I.e., eles não têm existência como entidades substanciais.