O caminho do bodhisattva como superior em relação àquele do discípulo e do buddha-solitário

Para uma discussão desses três caminhos em um contexto Theravāda, ver *ThI.6.

M.64 O caminho do bodhisattva como superior

A primeira passagem afirma que o caminho do bodhisattva é o caminho buddhista superior. O ideal buddhista não toma qualquer um dos caminhos relativamente curtos, o caminho de se tornar um discípulo iluminado ou um buddha solitário, mas compassivamente toma o caminho longo para o estado de Buddha perfeitamente desperto, permanecendo na roda dos renascimentos por inúmeras vidas para ajudar os outros, enquanto desenvolve as qualidades necessárias para o estado de Buddha. A segunda passagem explica que aqueles que alcançaram o sexto dos dez estágios do caminho do bodhisattva, e que ainda não estão certos de alcançar a iluminação perfeitamente desperta, são ainda superiores aos discípulos (arhant) e buddhas solitários.

Filho de boa família, existem três dharmas: inferiores, intermediários e superiores. Aquele que pratica o Dharma inferior é um discípulo [360]. Aquele que pratica o Dharma intermediário é um buddha solitário. Aquele que pratica o Dharma mais elevado é um Buddha. …

Filho de boa família, quando um bodhisattva atingiu a fase de libertação, ele jamais executará ações que levarão a renascer no (em níveis divinos do) reino do desejo sensorial, no reino da forma ou no reino sem forma. Ele faz um voto para nascer sempre onde possa beneficiar os seres vivos. Se ele sabe com certeza que suas ações levarão ao renascimento entre as deidades, ele imediatamente transformará essas ações a fim de nascer como um ser humano. As ações referidas aqui são a generosidade, a observância dos preceitos e a prática da meditação.

Quando um discípulo atinge o estágio inicial de libertação, não mais do que três vidas passarão antes que ele alcance a libertação completa. O mesmo se aplica ao buddha-solitário.

Um bodhisattva, um grande ser, que alcançou o estágio inicial de libertação, nunca regride, apesar de que inúmeras vidas passarão antes que ele alcance a libertação completa. Com a sua mente irreversivelmente determinada no despertar, ele é superior a todos os discípulos e buddhas-solitários.

Singalaka perguntou ao Buddha: “Bem-Aventurado, por que os seres vivos treinam suas mentes a fim de alcançar o despertar?” O Buddha respondeu: “Filho de boa família, há duas razões pelas quais os seres vivos treinam suas mentes a fim de alcançar o despertar. A primeira é que eles consideram que, embora aqueles que alcançaram a sabedoria do sexto estágio do caminho do bodhisattva possam regredir, eles ainda são superiores a todos os discípulos e buddhas-solitários. A segunda é que eles buscam o fruto insuperável da prática”.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap.4, pg.1037b09–10, 14–21, e cap.2, pg.1035b18–23, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.65 A sabedoria superior de um Buddha perfeitamente desperto

Filho de boa família, a compreensão de todos os fatores condicionantes do Tathāgata é perfeita. Discípulos e buddhas-solitários também adquirem uma compreensão de todos os fatores condicionantes em relação às Quatro Verdades dos Nobres, mas essa compreensão é incompleta. É por isso que eles não são chamados de Buddhas perfeitamente despertos…. Discípulos e buddhas-solitários eliminaram suas impurezas, mas suas tendências habituais permanecem. O Tathāgata desenraizou até as tendências habituais das impurezas. É por isso que ele é chamado de um Buddha perfeitamente desperto.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap. 5, pg.1038b, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.66 Somente Buddhas acabam completamente com a ignorância espiritual e experimentam o nirvāna.

Nesta passagem, a rainha Śrīmālā dá o ensinamento mahāyāna que diz que só os Buddhas perfeitamente despertos completaram a tarefa de transformação espiritual.

Bem-Aventurado, os arhants, buddhas solitários e bodhisattvas que estão em sua existência final estão submersos na ignorância latente. Eles não conhecem e não percebem vários fenômenos. Se eles não sabem e não percebem o que deve ser destruído, eles não podem, em última análise, destruí-lo. À medida que essas coisas não são destruídas, sua libertação é dita ser incompleta, com falhas remanescentes. Não é a libertação impecável. A sua pureza é dita ser incompleta, não abrangente. Isso é chamado realização da virtude incompleta, virtude que não é abrangente. É a realização da libertação incompleta, pureza incompleta, virtude incompleta. Se alguém entende parcialmente o que é doloroso, elimina parcialmente a sua origem, percebe parcialmente a sua cessação e parcialmente pratica o caminho, dele é dito ter parcialmente atingido o nirvāna. A realização parcial do nirvāna é dita ser orientada para o reino do nirvāna. Se alguém entende completamente o que é doloroso, elimina completamente a sua origem, realiza completamente a sua cessação e pratica o caminho completamente, dele é dito ter atingido o nirvāna eterno no mundo – o mundo impermanente em decomposição, o mundo impermanente cheio de doença. Isso oferece apoio e proteção em um mundo que (de outra maneira) não oferece apoio nem proteção. Por que é assim? É porque o nirvāna é alcançado por conta de os fenômenos não serem superiores nem inferiores, porque a sabedoria é a mesma para todos, porque a libertação é a mesma para todos, porque a purificação é a mesma para todos. É por isso que o nirvāna tem um gosto, o mesmo gosto para todos, o sabor da liberdade.

Śrīmālādevī-siṃhanāda Sūtra, Taishō vol.12, texto 353, cap.5, pg.220a25-b10; cf. Taishō vol. 11, texto 310, pg. 675c08-18, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.67 O bodhisattva trabalha incansavelmente dentro saṃsāra enquanto em sintonia com o nirvāna.

Nesta passagem, em que o Buddha se dirige aos bodhisattvas que vieram de outros mundos, ele detalha como um bodhisattva deve trabalhar incansavelmente no mundo condicionado a fim de ajudar os seres, contemplando as qualidades do incondicionado, nirvāna, sem permitir, contudo, que eles mesmos deixem o mundo condicionado dos renascimentos. Isto às vezes é chamado de “nirvāna que não se baseia em nada”.

O Bem-Aventurado disse: “Filhos de boa família, há uma libertação para os bodhisattvas que é chamada de ‘O Destrutível e Indestrutível’. Vocês devem treinar a si mesmos nela. No que isso consiste? ‘O destrutível’ refere-se ao que é condicionado, e o ‘Indestrutível’ se refere ao que é incondicionado. Um bodhisattva não deve destruir o que é condicionado, nem se assentar no que é incondicionado.

Não destruir o que é condicionado significa não hesitar diante da grande amorosidade; não desistir da grande compaixão; não deixar de estar conectado à mente da onisciência, que se baseia na firme determinação; não se cansar de conduzir os seres vivos até o amadurecimento; não dispensar os métodos para aproximar as pessoas; dar o corpo e a própria vida para proteger o Dharma; nunca ficar satisfeito com a extensão das próprias raízes saudáveis; apoiar-se na dedicação de seus atos salutares à causa do despertar; não ser preguiçoso no esforço pelo Dharma; não ficar de boca fechada quando ensinar o Dharma; ter muito entusiasmo para ver e louvar os Tathāgatas; escolher destemidamente o renascer; não ficar exaltado pelo sucesso ou pela inclinação ao fracasso; não olhar com menosprezo para aqueles que não têm aprendizado; ter o mesmo tipo de afeição por aprender que um aluno tem com seus professores; levar aqueles que estão preenchidos com as impurezas para a compreensão profunda; não ser absorvido pelos prazeres da solidão; não buscar a própria felicidade, mas tornar-se absorvido pela busca da felicidade dos outros; ver a absorção meditativa, a concentração meditativa e as realizações meditativas como sendo o Inferno de Avīci; ver o saṃsāra como um palácio rodeado por jardins [361]; ver os pedintes como amigos espirituais; ver o abandono de tudo o que possui como a realização da onisciência; ver as pessoas imorais como sendo salvadoras; ver as perfeições como mãe e pai; ver as práticas que ajudam a alcançar o despertar como seus assistentes; nunca deixar de acumular raízes saudáveis, criando um campo de Buddha que tenha as boas qualidades dos campos de Buddha; ser irrestrito em fazer oferendas com a finalidade de atingir as marcas corporais e características secundárias de um Buddha; adornar o corpo, fala e mente não participando de quaisquer atos malignos; purificar o corpo, fala e mente andando através do saṃsāra por incontáveis éons; evitar o desânimo, ouvindo atentamente as boas qualidades do Buddha com uma atitude de heroísmo mental; derrotar as impurezas, que são inimigas, tomando a espada da sabedoria; assumir o fardo de todos os seres vivos através da compreensão das categorias da existência, dos elementos e das bases sensoriais; atacar os exércitos de Māra com flamejante vigor; buscar o Dharma a fim de libertar-se do orgulho; ficar satisfeito com pouco a fim de se apossar do Dharma e buscar conhecimento; não se envolver com as coisas do mundo com o fim de agradar as pessoas do mundo; não interromper a prática espiritual com o fim de estar em conformidade com o mundo; cultivar os conhecimentos mais elevados a fim de ser capaz de ver todas as ações; desenvolver o conhecimento, a vigilância e os dhāraṇīs [362], a fim de ser capaz de se lembrar de tudo o que tem ouvido; compreender as faculdades de outros a fim de remover as incertezas de todos os seres vivos; basear a si mesmo no não-apego com o fim de ensinar o Dharma; desenvolver a faculdade da expressão clara, a fim de dar expressão clara ao não-apego; experienciar boa fortuna como um ser humano ou uma deidade, purificando a prática dos dez tipos saudáveis de ação; atingir o estado de deus-brahmā por meio do cultivo das quatro qualidades ilimitadas [363]; pedir aos Buddhas para ensinar o Dharma, elogiando-os, regozijando-se neles e fazendo oferendas a eles a fim de ouvi-los falar; alcançar a restrição de corpo, fala e mente, e tornar-se absorvido por todos os ensinamentos do Dharma a fim de realizar a prática espiritual de um Buddha; reunir a Sangha bodhisattva a fim de difundir o Mahāyāna; e ficar vigilante para não deixar se perder nenhuma boa qualidade. É fazendo isso, filhos de boa família, que um bodhisattva que é dedicado ao Dharma não destrói o que é condicionado.

O que quer dizer, então, não nos assentarmos no que é  incondicionado? Um bodhisattva se familiariza completamente com a  vaziez [364], mas não realiza a vaziez. Ele se familiariza completamente com a liberdade face às características, mas não realiza a ausência de características. Ele se familiariza completamente com a liberdade face às aspirações [365], mas não realiza a liberdade em relação às aspirações. Ele se familiariza completamente com o não-realização, mas  não realiza a não-realização. Ele examina a impermanência, mas não está contente com as suas raízes saudáveis. Ele examina o que é doloroso, mas escolhe renascer. Ele examina a não-existência de um eu essencial, mas não se entrega à destruição. Ele examina a paz, mas não cultiva a paz absoluta. Ele examina a solidão, mas faz esforço com o seu corpo e a sua mente. Ele examina o estado de não se ter fundação, mas não abandona a fundação das boas qualidades. Ele examina a liberdade em relação ao apego, mas toma sobre si o fardo dos seres. Ele examina a liberdade das inclinações intoxicantes, mas segue o curso do saṃsāra. Ele examina a não-ação, mas age de maneira a levar os seres à maturidade. Ele examina a ausência de um eu essencial, mas não vacila na sua grande compaixão pelos seres vivos. Ele examina a liberdade face ao nascimento, mas não cede às limitações de um discípulo [366]. Ele examina o vazio, a trivialidade, a insubstancialidade, a não-possessividade e o sem abrigo, mas o seu karma benéfico não é vazio, o seu conhecimento não é trivial, a sua discriminação é perfeita, ele é iniciado no conhecimento auto-surgido e habilidoso no conhecimento auto-surgido, ele torna o seu sentido claro, e ele se baseia na linhagem do Buddha. É assim, crianças de boa família, que um bodhisattva que é devotado ao Dharma não se assenta no que é incondicionado, e ainda assim não destroi o que é condicionado.

Vimalakīrti-nirdeśa Sūtra, cap.10, seções 16–18, trad. do sânscrito por D.S.

 

Notas:

[360] Supostamente significando o mais elevado nível de um discípulo, um arhant, enquanto que os dois acima são tipos de seres despertos.

[361] Ou seja, ele preferiria estar em meio às coisas, ajudando outros, que apegado às meditações reclusas.

[362] Fórmulas ou encantações poderosas, similares aos mantras.

[363] Amorosidade, compaixão, alegria apreciativa e equanimidade.

[364] Isso e o que os três tipos de liberdade seguintes são aspectos do nirvana e a realização dele.

[365] Pensamento baseado no desejo, direcionado a atingir algum objetivo.

[366] Isto é, ele não busca ir além dos renascimentos tão logo quanto possível.