Desenvolvendo a mente do despertar (bodhi-citta)

No Mahāyāna, o surgimento da mente do despertar, a mente determinada a alcançar o despertar (bodhi) de um Buddha perfeito, é visto como um evento potente e profundo, que transforma uma pessoa e energiza as ações compassivas que a aproximam do estado de Buddha (ver também *V.33–9). Em um sentido mais profundo, a mente do despertar é também a mente desperta em si: “final”, ao invés da mente do despertar “relativa”.

M.71 Razões para desenvolver a mente do despertar

O bodhisattva Samantabhadra dirigiu-se a Samantamati e à assembleia de bodhisattvas: “Filhos de Buddha, existem dez razões para os bodhisattvas, grandes seres, desenvolverem a mente do despertar. Quais são elas? Elas são: ensinar, orientar e treinar todos os seres vivos; livrar todos os seres vivos de sua carga de sofrimento; trazer a felicidade da tranquilidade para todos os seres vivos; livrar todos os seres vivos de sua ilusão; conduzir todos os seres vivos ao entendimento de um Buddha; servir e adorar a todos os Buddhas; seguir o que o Buddha está ensinando a fim de agradar ao Buddha; ver as maravilhosas marcas físicas de todos os Buddhas; penetrar a sabedoria universal de todos os Buddhas; e manifestar os poderes e a autoconfiança de um Buddha”.

Avataṃsaka Sūtra, Taishō Vol. 10, texto 279, pg.282b6–15, trad T.T.S e D.S.

 

O bodhisattva Dharmamati disse a Indra: “Filho de Buddha, quando bodhisattvas primeiramente fixam suas mentes em direção ao despertar, … eles não o fazem apenas a fim de treinar todos os seres vivos, orientando-os no cumprimento dos cinco preceitos e do caminho dos dez tipos corretos ​​de ação, ensinando-os a habitar nas quatro absorções meditativas, as quatro qualidades ilimitadas e os quatro estados meditativos sem forma, instruindo-os sobre como obter os frutos do entrante-na-corrente, do uma-vez-retornante, do não-retornante, do arhant, e do Buddha solitário, e como fixar suas mentes em direção ao despertar.

Eles também o fazem, a fim de sustentar a linhagem ininterrupta do Tathāgata, abraçar todos os mundos, libertar todos os seres vivos, obter uma compreensão completa da evolução e da dissolução de todos os mundos, obter uma compreensão completa da pureza e da impureza de todos os seres vivos em todos os mundos, obter uma compreensão completa da pureza essencial de todos os mundos, obter uma compreensão dos prazeres mentais, as impurezas e as tendências habituais de todos os seres vivos, entender como todos os seres vivos morrem e renascem, compreender os meios e as capacidades de todos os seres vivos, compreender as atividades mentais de todos os seres vivos, perceber todos os seres vivos nos três tempos, entender que todos os reinos dos Buddhas são o mesmo. É a fim de fazer tudo isso que eles fixam suas mentes em direção ao despertar insuperável e perfeito”.

Avataṃsaka Sūtra, Taishō vol.10, texto 279, pg. 89b1–19, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.72 Ajudas para estimular a mente do despertar

Filhos de boas famílias, são cinco as coisas que levam à determinação da mente para o despertar. A primeira é a companhia próxima a amigos espirituais. A segunda é a eliminação do ódio na mente. A terceira é o seguir as instruções do professor. A quarta é o desenvolvimento da compaixão na mente. A quinta é praticar diligentemente e com vigor.

Existem outras cinco coisas que levam à determinação da mente para o despertar. A primeira é não observar as falhas dos outros. A segunda é não ficar desencorajado mesmo quando se veem essas falhas. A terceira é não ser arrogante ao fazer boas ações. A quarta é não ser invejoso dos outros quando eles fazem boas ações. A quinta é olhar cada ser vivo como o seu próprio filho.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap.2, pg.1035c08–13, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.73 Razões para a compaixão de um bodhisattva

Filho de boa família, um sábio tem a visão profunda de que todos os seres vivos afundam no grande oceano do saṃsāra de sofrimento e promete resgatá-los. Devido a isso, desenvolve compaixão por eles. … Embora ele veja que os seres vivos estão cheios de ressentimento e ódio, os trata como família. Devido a isso, desenvolve compaixão por eles. Ele vê que os seres vivos se desviam do caminho correto, por não terem um guia. Devido a isso, desenvolve compaixão por eles. Ele vê que os seres vivos afundam na lama dos cinco tipos de desejo sensorial, que eles se entregam a eles e são incapazes de escapar. Devido a isso, ele desenvolve compaixão por eles. Ele vê que os seres vivos estão presos às suas posses, cônjuges e filhos, e são incapazes de abandoná-los. Devido a isso, ele desenvolve compaixão por eles. … Ele vê que os seres vivos se satisfazem em renascer no reino da existência, embora sejam afligidos por todas as impurezas. Devido a isso, ele desenvolve compaixão por eles. … Ele vê que, embora os seres vivos anseiem por felicidade, eles não criam as causas da felicidade para si mesmos, e, embora não gostem de sofrimento, eles criam as causas do sofrimento para si mesmos. … Devido a isso, ele desenvolve compaixão por eles.

Upāsaka-śīla Sūtra, Taishō vol.24, texto 1488, cap.3, p. 1036a11–26, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.74 As aspirações compassivas de um bodhisattva

Vimalakīrti disse: “Filhos de boa família, há oito qualidades que um bodhisattva deve possuir para seguir com segurança e sem obstrução a partir deste sistema mundial chamado Terra para um campo de Buddha completamente puro na morte. Quais são essas oito qualidades? Ele deve pensar: ‘Eu devo ajudar a todos os seres vivos, e não procurar obter nenhum prazer deles. Eu devo, portanto, esforçar-me para assumir o sofrimento de todos os seres vivos e transmitir-lhes minhas raízes saudáveis [370]. Eu não devo ter má-vontade para com qualquer ser vivo. Devo considerar todos os bodhisattvas com o mesmo carinho que um aluno tem para com seu professor. Eu não devo me opor a quaisquer ensinamentos do Dharma, tenha eu os ouvido antes ou não. Eu não devo ter inveja das realizações dos outros, mas contemplar minha mente profundamente sem nenhum desejo de conseguir alguma coisa para mim. Eu devo examinar minhas próprias falhas, e não apontar os defeitos dos outros. Devo regozijar-me com a vigilância e me dispor a cultivar todas as possíveis boas qualidades’. …”

Vimalakīrti-nirdeśa Sūtra, cap.9, seção 18, trad. do sânscrito por D.S.

 

M.75 Os votos compassivos do Bodhisattva

Esta passagem é uma expressão imagética do desejo de um bodhisattva por salvar outros seres

No “Nobre Vajradhvaja Sūtra”, ele (o Buddha), diz: “… um bodhisattva, um grande ser, com vigilância e clara compreensão, sua mente pura e profunda … (pensa), ‘ … a massa de sofrimento de todos os seres, … tudo isso eu removerei através de renascer no inferno [371] e nos reinos de infortúnio. Que todos os seres vivos sejam removidos desses lugares. Eu tomo essa carga de sofrimento sobre mim [372], determinado a suportar isso. Eu não volto atrás. Eu não fujo. Eu não tenho medo. Eu não tremo. Eu não temo. Eu não desvio. Eu não me desespero.

Por que é assim? É porque eu preciso remover o fardo de todos os seres vivos. Este não é o cumprimento do meu próprio desejo, é meu voto de resgatar todos os seres vivos. Eu devo libertar todos os seres vivos. Devo salvar o mundo inteiro do deserto do nascimento, do deserto da velhice … da doença … de cair no renascimento … de todas as falhas … de todas as desgraças … da totalidade do saṃsāra … do emaranhado de todos os pontos de vista errôneos … da perda de qualidades saudáveis, e do deserto do surgimento da ignorância. Eu devo libertar os seres vivos de todos estes desertos. Eles estão emaranhados na rede do apego, preenchidos com o obstáculo da ignorância, sobrecarregados com o desejo sedento pela existência, destinados à morte, jogados para dentro da jaula do sofrimento, apaixonados por sua prisão, tolos, não confiantes em seus compromissos, cheios de incertezas, sempre discordando, encontrando desconforto, sem refúgio adequado, assustados, sozinhos no ciclo de existência. … [373] Eu trabalho para estabelecer o reino de compreensão insuperável para todos os seres vivos. Não tenho a intenção de libertar apenas a mim. Usando a jangada da mente focada na onisciência, devo puxar todos os seres vivos dos estados malignos do saṃsāra. Devo trazê-los de volta do grande precipício. Devo libertá-los de todas as desgraças. Devo transportá-los através do rio do saṃsāra. Tomo a massa de sofrimento de todos os seres vivos sobre mim mesmo. Eu tenho a força para abraçar todo o sofrimento que se encontra em todo o infortúnio de todos os sistemas de mundos. Não irei enganar qualquer ser vivo em suas raízes saudáveis. Estou determinado a suportar todos os infortúnios por incontáveis éons. Suportarei cada estado de infelicidade em cada sistema de mundo a fim de libertar todos os seres vivos.

Por que é assim? É porque é melhor que somente eu sinta dor, ao invés de todos esses seres vivos que têm caído em estados de infortúnio. Devo entregar-me à escravidão, e todo o mundo deve ser resgatado dos desertos do inferno, do reino animal, e do reino governado por Yama [374]. Devo abraçar toda a massa de sensações dolorosas com meu próprio corpo, pela salvação de todos os seres [375]. A fim de ajudar a todos os seres vivos, devo ser capaz de me tornar igual a eles. Devo ser confiável, falar a verdade, criando harmonia quando falo.

Por que é assim? É porque o meu cultivo de uma mente focada na onisciência é baseada em todos os seres vivos, e devo libertar o mundo todo. Não me estabeleci em atingir o insuperável, o despertar perfeito, a fim de obter os deleites de prazeres sensoriais … Por que é assim? É porque os deleites do mundo não são deleites de fato. Estar devotado aos prazeres sensoriais é estar devotado a Māra’.”

Śikṣā-samuccaya deŚāntideva, cap. 16, trad. do sânscrito por D.S.

 

M.76 A sabedoria do bodhisattva, amorosidade e a compaixão para salvar os outros

Essa passagem vê a sabedoria do bodhisattva como sendo emitida pelo seu ou sua bondade e compaixão.

O Bem-Aventurado disse: “Subhūti, se todos os seres vivos neste mundo adquirissem forma humana repentinamente, cultivassem suas mentes dirigidas para o insuperável e perfeito despertar, e mantivessem tais mentes enquanto vivessem, e honrassem, reverenciassem, venerassem, louvassem e glorificassem todos os Tathāgatas enquanto vivessem, e então dessem presentes para todos os seres vivos, e dedicassem os benefícios kármicos desse ato de generosidade para o insuperável e perfeito despertar, você acredita, Subhūti, que aqueles bodhisattvas, aqueles grandes seres, produziriam uma grande quantidade de benefício kármico fazendo isso?”

Subhūti disse: “Sim, Bem-Aventurado, eles produziriam uma grande quantidade de benefício kármico – uma grande porção, Afortunado”.

O Bem-Aventurado disse: “Subhūti, um filho ou filha de boa família que é um bodhisattva, um grande ser, e que permanece com sua mente absorta pela perfeição da sabedoria por apenas um dia produz ainda mais benefício kármico. E por que isso? É porque, Subhūti, sempre que um bodhisattva, um grande ser, permanece com sua mente absorta pela perfeição da sabedoria por apenas um dia e uma noite, ele é merecedor de veneração por todos os seres vivos. E por que isso? É porque não há outros seres vivos que possuam uma mente preenchida com amorosidade como a mente daquele bodhisattva, esse grande ser, exceto os Buddhas, os Bem-Aventurados. E porque isso? É porque, Subhūti, os Tathāgatas são incomparáveis. Os Tathāgatas são inigualáveis, Subhūti. As qualidades dos Tathāgatas, os arhants, os perfeitamente despertos Buddhas, Subhūti, são inconcebíveis.

Como, Subhūti, um filho ou filha de boa família produz tanto benefício kármico? Um bodhisattva, um grande ser, por meio da sabedoria que ele possui, Subhūti, vê todos os seres vivos como se encaminhando para a morte. Devido a isso, ele é tomado por grande compaixão. Com seu olho divino, ele vê em detalhes inumeráveis, incalculáveis, incomensuráveis, incontáveis ​​seres vivos que possuem karma que terá um efeito imediato: os seres vivos que nasceram em circunstâncias desfavoráveis, que estão sendo destruídos, apanhados na rede de opiniões errôneas, que não têm acesso ao caminho. Ele vê os outros seres vivos nascidos em circunstâncias favoráveis, mas que perderam essas circunstâncias favoráveis. Quando ele vê isso, ele se torna profundamente consternado.

Ele estende sua grande amorosidade, sua grande compaixão a todos os seres vivos, e sua mente se torna absorvida por eles. Ele pensa: ‘Eu serei o protetor de todos esses seres vivos. Eu libertarei todos esses seres vivos de todo o sofrimento’. Entretanto, ele não associa isto ou qualquer outra coisa com um rótulo. Essa, Subhūti, é a grande visão da sabedoria de um bodhisattva, um grande ser, pela qual ele alcança um despertar perfeito, insuperável. Por permanecer nesse estado, Subhūti, um bodhisattva, um grande ser, torna-se digno de oferendas de todo o mundo, e não retorna deste despertar perfeito e insuperável. Quando suas mentes estiverem estabelecidas na perfeição da sabedoria, e eles estiverem se aproximando da onisciência, dignos de presentes, eles purificam os presentes dados a eles dos quais fazem uso: mantos, alimentos, esmolas, materiais para dormir e sentar-se, remédio para tratar as doenças e utensílios [376]. Portanto, Subhūti, um bodhisattva, um grande ser, deve permanecer com a mente absorvida pela perfeição da sabedoria. Com isso, ele não consumirá seus requisitos recebidos sem nenhum propósito, mas irá ensinar a todos os seres vivos o caminho, estender o seu brilho de modo amplo e abrangente, libertar os seres vivos do saṃsāra e purificar a visão de todos os seres vivos”.

Aṣṭasāhasrikā Prajñāpāramitā Sūtra, cap.22, trad. do sânscrito por D.S.

 

Notas:

[370] Através dos poderes supranormais que um bodhisattva adquire como um resultado de sua prática de meditação, eles são tidos como literalmente capazes de assumir a dor e o sofrimento de outros seres vivos para si mesmos.

[371] Um bodhisattva pode escolher nascer nos reinos infernais para aliviar a dor dos seres que ali estão: de maneiras práticas, por meio de sua presença reconfortante e pelo ensino do Dharma. O bodhisattva Ksitigarbha é particularmente conhecido por assumir o renascimento nos infernos com este propósito (ver *M.68).

[372] Ver nota para *M.74.

[373] Abreviação de Śāntideva.

[374] Ver nota para *M.158.

[375] O que está sendo destacado nesta passagem é a disposição do bodhisattva de suportar qualquer forma de dor ou sofrimento em vez de deixar que um ser vivo passe por ele. Isto confirma a disposição do bodhisattva de  assumir a dor e o sofrimento dos seres vivos para si mesmo/a como mencionado no *M.74.

[376] Esses são os presentes dados aos monges e monjas.