A necessidade de um professor espiritual

M.68 A necessidade de mudar os próprios caminhos, e como um bom guia pode ajudar nisto.

Esta passagem mostra um bodhisattva aconselhando as pessoas sobre a necessidade de evitar os caminhos errados que trarão um sofrimento futuro para elas.

O Buddha disse ao Senhor Yama [367]: “Os seres humanos neste mundo são erráticos. Está em sua natureza serem voluntariosos e teimosos. São difíceis de serem treinados, difíceis de serem conduzidos”. O grande bodhisattva passou centenas de milhares de éons salvando-os do sofrimento, conduzindo-os rapidamente para a libertação. Para os seres humanos que agiram de uma maneira perniciosa, e até mesmo caíram no grande mal, o bodhisattva empregou o poder de sua habilidade nos meios a fim de resgatá-los das suas circunstâncias kármicas básicas e os conduziu para uma compreensão das suas existências anteriores.

Como os seres vivos deste mundo estão presos pelo peso dos seus próprios maus hábitos, eles entram e saem dos estados de dificuldade. O bodhisattva labuta, portanto, por incontáveis e prolongados éons, trabalhando para libertar seres como esses.

São como pessoas que perderam o seu caminho de casa, e acidentalmente tomaram uma estrada perigosa. Nessa estrada perigosa existem vários yakṣas [368] e também tigres, lobos, leões, serpentes, víboras e escorpiões. Esses viajantes perdidos logo enfrentarão percalços nessa estrada perigosa. Então, eles encontram um amigo espiritual que pode explicar as coisas com habilidade, e que sabe como evitar perigo, yakṣas, criaturas venenosas e assim por diante. Quando ele se depara com viajantes perdidos na estrada perigosa, diz para eles: ‘Saudações, senhores. Por que estão viajando por esta estrada? Qual o alcance das habilidades que vocês possuem que os permite evitar todos estes perigos?’

Quando ouvem suas palavras, eles percebem imediatamente que estão viajando em uma estrada perigosa, e retornam para escapar do perigo. Seu amigo espiritual lhes estende as mãos, e os guia para fora da estrada perigosa com seus perigos e criaturas venenosas, para uma estrada segura. Quando eles estão calmos e contentes, ele lhes diz: ‘Viajantes perdidos, não tomem essa estrada no futuro. Uma vez que estiverem nela, é difícil encontrar uma saída. Vocês podem perder suas vidas’.

Os viajantes que estavam perdidos ficaram tocados. Quando estavam por partir, o amigo espiritual lhes diz: ‘Se vocês virem qualquer outro viajante, homem ou mulher, sejam conhecidos ou não, digam a eles que essa estrada é cheia de perigos, e que pode lhes custar a vida. Não deixem que eles se dirijam para a morte’. Da mesma maneira, o bodhisattva Kṣitigarbha, com grande compaixão, resgata os seres vivos que estão sofrendo por causa de suas ações não saudáveis. Ele os dirige para nascer entre as deidades, onde experienciam grande felicidade.

Todos esses seres vivos que agiram de forma não saudável no passado compreendem o sofrimento que tais ações trazem, e uma vez que tenham escapado, eles não mais padecerão por tal sofrimento. Assim como os viajantes perdidos que tomaram acidentalmente uma estrada perigosa, e que encontraram um amigo espiritual que os levou para a segurança, eles jamais pegarão aquela estrada novamente. Se encontrarem outros, eles os alertarão para não tomarem aquele caminho, dizendo: ‘Nós pegamos essa estrada acidentalmente, mas agora que saímos dela, nunca mais andaremos nela. Se nós nos pegarmos viajando por esse caminho acidentalmente de novo, nós não a reconheceríamos como a mesma estrada perigosa que viajamos antes, e poderíamos perder nossas vidas’. Cair em estados prejudiciais de existência é assim.

Pelo poder de seus meios habilidosos, o bodhisattva Kṣitigarbha resgata os seres vivos e os dirige para nascer entre as deidades. Se eles tivessem que dar a volta, puxados pelo peso de suas ações prévias, acabariam nos infernos, e talvez nunca seriam capazes de escapar”.

Kṣitigarbha Bodhisattva Pūrva-praṇidhāna Sūtra, Taishō vol.13, texto 412, cap. 8, pgs.784c28–785a27, trad. D.S.

 

M.69 O benefício de ter amigos sábios e virtuosos

Essas passagens são de um texto sobre a peregrinação espiritual de Sudhana, que vai até cinquenta e três amigos espirituais – pessoas e seres de muitos tipos diferentes – em busca de orientação espiritual.

[3. Mañjuśrī ensina:] Naquela época, quando o bodhisattva Mañjuśrī havia pronunciado esses versos, ele disse para Sudhana: “Filho de boa família, se quiser alcançar a onisciência, deve resolver procurar amigos espirituais. Filho de boa família, você nunca deve se cansar de procurar por amigos espirituais. Você nunca deve se entediar de servir os amigos espirituais. Você deve fazer o que os seus amigos espirituais o aconselham a fazer. Você nunca deve encontrar falha no uso dos ‘meios hábeis’ por parte de seus amigos espirituais. …

[5. Sāramegha ensina:] Agora, o jovem Sudhana, que havia sido inspirado pelos seus amigos espirituais, que havia seguido os conselhos de seus amigos espirituais, que manteve em mente as palavras de seus amigos espirituais, que estimou profundamente seus amigos espirituais, refletiu: “Graças aos meus amigos espirituais fui tão abençoado a ponto de ser capaz de ver os Buddhas. Graças aos meus amigos espirituais, fui tão abençoado a ponto de ser capaz de ouvir os ensinamentos. Meus amigos espirituais são meus professores respeitados, pois eles me mostraram o caminho para o Dharma dos Buddhas. Meus amigos espirituais são meus olhos claros, pois graças a eles fui capaz de ver Buddhas preenchendo todo o espaço. Meus amigos espirituais são verdadeiramente o solo a partir do qual eu posso prosseguir para o lago de lótus dos Tathāgatas”.

Gaṇḍavyūha Sūtra, Taishō vol.10, texto 279, p.334a1-9, trad. T.T.S. e D.S.

 

M.70 Os amigos espirituais do bodhisattva: O Buddha, os bodhisattvas avançados e as perfeições

O Bem-Aventurado, então, dirigiu-se ao Venerável Subhūti uma vez mais, dizendo: “Um bodhisattva, Subhūti, um grande ser que partiu com a firme intenção de atingir o insuperável e perfeito despertar  deve, desde o início, servir, honrar e louvar seus amigos espirituais”.

Subhūti disse: “Bem-Aventurado, quem são esses amigos espirituais… ?”

O Bem-Aventurado, então, disse ao Venerável Subhūti: “Os Buddhas, Subhūti, os Bem-Aventurados, e aqueles bodhisattvas, aqueles grandes seres, que possuem habilidades no caminho do bodhisattva, que os instruem e os aconselham sobre as perfeições, e que ensinam e explicam a ele a perfeição da sabedoria – estes, Subhūti, são os amigos espirituais de um bodhisattva, um grande ser. A perfeição da sabedoria em si, Subhūti, é o amigo espiritual de um bodhisattva, um grande ser. Na verdade, Subhūti, todas as seis perfeições [369] são amigos espirituais do bodhisattva, um grande ser. As seis perfeições são seu mestre … seu caminho … sua visão … sua lanterna …. sua luz … sua proteção … seu refúgio … seu lugar de descanso….. seu santuário….. sua mãe … seu pai. As seis perfeições o conduzem ao conhecimento, ao entendimento, ao insuperável, perfeito despertar.

Aṣṭasāhasrika Prajñāpāramitā Sūtra, cap.22, trad. do sânscrito por D.S.

 

Notas:

[367] O Senhor da Morte, que encontra com aqueles que acabaram de morrer.

[368] Seres ou espíritos sobrenaturais, muitas vezes maléficos ou enganadores.

[369] Generosidade, disciplina ética, aceitação paciente, vigor, meditação e sabedoria.