Disciplina ética, meditação, sabedoria

As impurezas espirituais, como ganância, raiva, e ilusão, existem em três níveis: expressas por meio de ações do corpo ou da fala; em linhas ativas de pensamento ou estados conscientes da mente; e como tendências subjacentes e inclinações tóxicas não expressas, habitando as profundezas da mente. O caminho buddhista necessita acessar todos os três níveis.

A disciplina ética (sila) restringe o comportamento corporal e ações nocivas. Concentração meditativa (samādhi) treina a mente para controlar estados nocivos e cultivar os saudáveis, e sabedoria (paññā), auxiliada pela calma meditativa, pode desencavar as raízes das tendências subjacentes e inclinações tóxicas.

Th.97 A disciplina ética como base para o resto do caminho

Então veja, Ānanda, a disciplina ética saudável tem a libertação em relação ao arrependimento como propósito e benefício; a libertação em relação ao arrependimento tem o contentamento; o contentamento tem a alegria; a alegria tem a tranquilidade; a tranquilidade tem a felicidade; a felicidade tem a concentração meditativa; a concentração meditativa tem o ver as coisas como elas realmente são; o ver as coisas como elas realmente são tem o afastamento e o não-apego; o afastamento e o não-apego tem a libertação por meio do conhecimento e visão como o seu propósito e benefício. Então veja, Ānanda, a disciplina ética saudável gradualmente leva até ao cume.

Ānisaṃsa Sutta: Aṅguttara-nikāya V.2, trad. P.H.

Th.98 O desdobramento do caminho gradual nos três treinamentos

Esta passagem se concentra nas etapas graduais de treinamento espiritual em termos da disciplina ética e da meditação, como base para a sabedoria. Um brāhmana diz que há progresso gradual pela subida de uma escada, e no treinamento dos brāhmanas, arqueiros e contadores; em seguida, pergunta ao Buddha:

“Venerável senhor, é possível encontrar, da mesma maneira, um treinamento gradual, um curso gradual de ação e um caminho gradual também neste Dhamma e disciplina?”

“Brāhmana, é possível encontrar neste Dhamma e disciplina, também, um treinamento gradual, um curso gradual de ação e um caminho gradual de prática. Um inteligente treinador de cavalos, tendo obtido um jovem puro-sangue para o treinamento, em primeiro lugar o treina no toque do freio e, então, lhe dá a seguir o treinamento subsequente. Da mesma maneira, o Tathāgata obteria uma pessoa passível de contenção e a disciplinaria primeiro da seguinte maneira: ‘Venha, monge, pratique bem, e viva na observação das restrições do código de regras monásticas, sendo bem-educado e cortês, vendo o medo nas menores falhas; observe as regras de conduta e treine a si mesmo nelas’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, proteja-se nas portas dos sentidos. Tendo visto uma forma com o olho, não se agarre às suas características maiores ou menores. Pois, quando alguém vive com a faculdade da visão sem ser contida, o desejo e o desprazer, os estados maléficos e insalubres afluem, pratique a contenção em relação a isso.  Tendo escutado um som com o ouvido … cheirado uma fragrância com o nariz, experimentado um sabor com a língua, tocado um objeto tangível com o corpo e discernido uma ideia com a mente… pratique a contenção em relação a essas faculdades sensoriais’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, seja moderado na alimentação. Tendo considerado com a reflexão adequada, tome da comida assim: não para brincar, não para intoxicação, não para parecer bonito, não para decoração, mas para a mera manutenção do corpo e para o sustento, para evitar causar lesão (no corpo), como um apoio à vida santa, pensando: “Eu alivio o sentimento doloroso anterior (referente à fome) e não dou origem a um novo sentimento doloroso (referente a comer em excesso), e deixo que este seja um veículo para mim para a irrepreensibilidade e um modo de vida confortável”’.

Brāhmana, quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, viva de modo desperto. Durante o dia, andando e na postura sentada, limpe a mente dos estados obstrutivos. Na primeira vigília da noite … limpe a mente dos estados obstrutivos. No meio da noite, vire-se para a direita e durma mantendo a postura do leão, colocando um pé sobre o outro, lembrando-se, com vigilância e clara compreensão, do sinal do acordar. Na última vigília da noite, andando e na postura sentada, limpe a mente dos estados obstrutivos’.

Brāhmana, quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Venha, monge, seja dotado de vigilância e clara compreensão. Aja com clara compreensão quando se aproxima e se afasta, olha para a frente e olha em volta, se curva e se alonga, carrega os mantos e a tigela, come, bebe, morde e degusta, urina e defeca, quando anda, fica em pé, senta, dorme e está acordado. Aja com clara compreensão quando fala e mantém o silêncio’.

Quando o monge cumpre isso, o Tathāgata o treina mais além, assim: ‘Vem monge, recorre a uma moradia isolada, uma floresta, a base de uma árvore, uma montanha, uma gruta, uma caverna, um cemitério, um refúgio na selva, um espaço aberto ou um monte de folhas’. Fazendo isso, quando regressa da coleta de alimentos, depois da refeição, ele se senta de pernas cruzadas, com o corpo ereto e a observação vigilante estabelecida à sua frente”. [A passagem prossegue com a descrição de como ultrapassar os cinco obstáculos à calma meditativa e alcançar, por sua vez, as quatro absorções meditativas, tal como nas passagens *Th.127 e 140, e depois diz que alguns discípulos prosseguem para alcançar o objetivo final, enquanto outros não, da mesma maneira que algumas pessoas conseguem seguir as orientações para um destino e outras não].

Gaṇaka-moggallāna Sutta: Majjhima-nikāya  III.1–3, trad.  P.D.P.